sábado, 28 de maio de 2016

SILÊNCIO ORGÂNICO: A FATIA DA MINHA VIDA QUE EU NÃO HAVIA REVIVIDO

TRANCADO
Allan Maykson

Abra essa porta
Eu quero passar 
Preciso ir lá

Preciso ir lá. 


Tá tudo escuro 
Não consigo dormir
Eu quero ir lá
Preciso ir lá.

A porta não abre 
Eu quero passar
Eu preciso ir lá
Eu tenho de ir lá

Droga! Porta! Abre!
Eu quero pas-sar 
Pre-ci-so ir lá
Pre-ci-so ir...

28 de maio de 2016

Vivi essa aula de maneira tão intensa que não contive minhas lágrimas durante e depois da minha performance. Ocorre que nesta proposição recortei uma fatia de um momento trágico da minha vida que eu nunca havia posto à prova e nessa aula foi o momento que, a partir da proposta, o melhor recorte seria parte do velório do meu avô.

            Nesse bimestre, estamos estudando o Teatro do Absurdo, uma estética considerada a mais bem sucedida do século XX, em que toda a classe artística estava engajada na questão do "por que viver?", o homem pós guerra, na música, nas artes cênicas, nas artes plásticas que vivia fortemente o surrealismo. Nas aulas, desde o início, estamos trabalhando o extracotidiano, a expansão e dilatação do corpo, a plasticidade, o choque de visualidades, o estranhamento. Por essas razões, a proposta dessa aula de corpo foi um diferencial, porque vivenciamos mecanismos da estética realista, cujo pai foi Cnstantin Stanislavski, ator, diretor, escritor e pedagogo russo de grande destaque nos séculos XIX e XX. 

    A estética realista, traz a cotidianidade, o reconhecimento de uma relação com o ambiente e com as coisas, é o ser vivo em cena, o gesto mais formal, mas não abrindo mão de tônus e dilatação, mas disfarçando essa pulsão dentro de uma realidade ficcional, de um enquadramento realista, digamos assim. 

     A ideia é produzir ações físicas  a partir de um enquadramento interno, de uma série de falas internas, fatos da vida, lembranças, mecanismos que nos permitem o acesso às nossas subjetividades. De acordo com Zaltron (2010, p. 1), Stanislavski propunha despertar no ator um "autêntico estado criador", para isso, enfocava-se na memória emotiva.

     Portanto, a proposição da aula foi clara e dizia implicava no acesso ou no despertamento dessa memória emotiva. Deveríamos trazer à tona lembranças exatas das nossas ações, sensações, o nosso olhar diante de tal situação, como nosso corpo se comportou do tal espaço, as pausas os olhares, a explosão. Essas memórias foram o ponto de partida de ações físicas, para elas tivemos de fazer um roteiro, descrição, falas internas para então apresentar.

    Ou, como segunda opção, fazer a mesma coisa a partir de uma invenção, de um contexto ficcional criado por nós, mas que tivéssemos vontade de que aquilo nos ocorresse, para então gerar pulsão. Vamos experimentar nosso Eu-circunstanciado, ou seja, nosso bios-cênico friccionado num encapsulamento interno, um enquadramento, numa circunstância. 

     A professora ainda se referiu a esse método como Ensaio de Silêncio Orgânico, no entanto, para ele não encontrei fundamentos teóricos na internet. 

      Primeiramente descrevi a situação, depois a separei em partes para então inserir as falas internas, no entanto, esse último procedimento não foi possível por conta do tempo, contudo, a descrição das cenas fragmentadas  me serviram de chão para a execução das tarefas com verdade, porque enfoquei em pequenos verbos de ação, que são a metodologia ideal para as falas internas, pequenas expressões. Vejamos: 

     

        Toda essa descrição foi material pulsante para a apresentação da ação física mais tarde. A memória me tocou tanto, que antes mesmo de apresentar, minha respiração já estava outra, eu já era aquele menino que, imaturo, mal conhecia a dor, mas a vivia sem saber o que era exatamente a morte. Eu já estava com meu eu-circunstanciado, encapsulando energia, esperando o momento certo para explodir. A memória emotiva já estava estimulada. Sobre isso, Zaltron (2010, p. 1) à luz de Stanislavski nos explica que



        "A memória emotiva foi estimulada por ele (Stanislavski) como um caminho para justificar internamente as ações do ator em cena, ao rechaçar as formas “vazias” do teatro da época, que estava, em sua maioria, embasado no uso habitual das convenções externas. 


     No silêncio orgânico e em tantas outras vivências teatrais podemos confirmar as teorias, quanto mais experimentamos, mais compreendermos a verdade já descrita e abrimos portas para estudos de novas questões que surgem. O teatro é intra, começa de dentro. Na psicofísica de Stanislavski, na coluna vertebral, como em Grotowiski (1988).

      Na construção da minha partitura, me utilizei das duas alternativas: Inventar uma situação e Utilizar uma real. Ocorre que a porta do meu quarto sempre esteve aberta na verdadeira ocasião, modifiquei essa realidade, dessa vez minha mãe me trancou no quarto porque ela não queria que eu fosse toda hora ver o meu avô na igreja sendo velado. 

      Vejamos a apresentação: 

     
     Quero, por fim, justificar as margens rabiscadas da folha na primeira imagem. Depois da minha apresentação sentei aos prantos no chão, não consegui mais se quer olhar o trabalho dos demais grupos, enquanto aquele filme passava eu rabiscava as margens do papel, não o centro, porque nele continha um pedaço de mim. 

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Referências

GROTOWISKI, Jerzy. Sobre os métodos da ações físicas. FESTIVAL DE TEATRO DE SANTO ARNAGELO. 1988. Itália. Dsponível em: <http://www.grupotempo.com.br/tex_grot.html>. Acesso em maio/2016.


ZALTRON, Michele Almeida.,2010. A imaginação no método das ações físicas de K. Stanislávski. Programa de Pós-Graduação em Ciência da Arte – UFF. 


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