"Jamais interprete, experimente"
(Gilles Deleuze)
Talvez em 2014, logo quando cogitei vir embora para a capital do Espírito Santo para estudar teatro e desenvolver a minha pesquisa - o Intrateatro -, ouvi no curso de Arteterapia: "esteja aonde os seus pés estão", ali aprendi que a vida tem cheiro, sabor, textura, som, cor, e que a vida é composta de fatias, cada uma delas são momentos, desde os mais simples, como apreciar um café da manhã, aos mais presunçosos como uma viagem inesquecível.
Independente do que seja essa fração de tempo a qual nos dedicamos para vivê-la, experimentar é a mais cara disposição que o ser humano pode ter para evoluir-se. Por conta desse aprendizado singelo, é que agucei os meus sentidos e ampliei a minha intuição, por conseguinte, outros fatores evoluíram, como a sensibilidade, a alteridade, a sensitividade, a faculdade de auscultar. Me considero uma pessoa frágil, vivendo momentos frágeis, desafiadores, mas genuinamente criativos.
Antes de aprender todas essas coisas eu já era poeta, ou seja, eu já sentia o peso do mundo, as tempestades, as adversidades, as turbulências pulsionais, a eminência do desconhecido. Eu já sentia as pessoas antes de conhecê-las, já previa fragmentos do futuro - isto tantas vezes me protegeu...
Antes de aprender todas essas coisas eu já era poeta, ou seja, eu já sentia o peso do mundo, as tempestades, as adversidades, as turbulências pulsionais, a eminência do desconhecido. Eu já sentia as pessoas antes de conhecê-las, já previa fragmentos do futuro - isto tantas vezes me protegeu...
A frase de Deleuze possui um rico sentido para minha vida enquanto ator em formação porque o que me trouxe ao teatro não foi o teatro. As pessoas que compartilham experiências comigo sabem que vim raso, vazio e desinformado sobre o que era teatro, eu simplesmente pensei: se teatro é corpo, se corpo é mente, se mente é consciente e inconsciente, pode ir mais fundo que a psicologia - graduação que me interessava antes. Vim pelo mero desejo de experimentar, e para isso precisei e ainda preciso experimentar diversas situações para que o teatro me aconteça, como ser independente, morar sozinho, viver longe da família, abrir mão de fins de semana e folgas, trabalhar muito por pouco - financeiramente falando - e a lista não terminaria. Contudo, o desejo pela experiência me mantém aqui e, tido como louco para quem ouve isso, me sinto feliz. Spolin (1979) nos deixou um legado sobre a experienciação, discorrendo em seus estudos sobre os potenciais do erro em cena - não exatamente com esse termo - enquanto problema à ser revolvido ali, naquele instante.
"Experienciar é penetrar no ambiente, é envolver-se total e organicamente com ele. Isto significa envolvimento em todos os níveis: intelectual, físico e intuitivo." (SPOLIN, 1979)
"Jamais interprete, experimente" me remeteu instantaneamente a um fragmento de um poema de Fernando Pessoa: "Navegar é preciso; viver não é preciso." Esta frase se traduz para mim e também para muitas pessoas como "experimentar é preciso", provar o cheiro, o sabor, a textura, o som, a cor da vida é preciso. Navegar é um fazer, exige toda uma laboração, uma elaboração, é uma ação, é uma prática, um exercício. Em contrapartida
"viver não é preciso no sentido de que a vida envolve não somente o lado racional, como também o emocional e o espiritual – viver não é nem nunca será, portanto, uma atividade precisa. Viver é deliciosamente ou terrivelmente impreciso, dependendo dos olhos de quem vê." (disponível em <http://textosparareflexao.blogspot.com/2010/05/navegar-e-preciso.html> Acesso em nov./2016.)
Como meu objetivo com as Artes Cênicas é ME experimentar, ME circunstanciar, ME aceitar, ME descobrir, percebo em cada atividade desenvolvida esta oportunidade, e a montagem de "Alice" me é um momento privilegiado de expor as minhas sombras, para que eu as veja exercendo sua força de maneira luminosa, na prática da arte, e assim, eu possa ver, me ver e apreender mais de mim.
Todos os personagens que eu interpreto no espetáculo têm uma coisa em comum: as minhas sombras, e não tenho vergonha de dizer. Me é experiência viver essas sombras, tal como o é sentir a devolutiva dos outros sobre isto, sobre mim. Vejamos:
O Soldado do Reino: tem lá os seus 37 anos, tem a postura rígida, porém, é um grande medroso e também curioso. Adora espiar o que as rainha faz com seus subalternos, mas quando ouve a famosa frase "cortem-lhe a cabeça", fica desajeitado e nunca consegue cortar uma cabeça de ninguém. É solitário e sua missão é andar sempre ao lado da rainha. Se sair, que seja breve. Carcereiro do ofício, escravo do trabalho, porém está sempre lá, com os seus pés bem ao lado da rainha, cumprindo desajeitadamente seu papel de soldado real. Tem um andar partiturizado, seus braços doem de tanto ficam para trás, não aguenta correr muito, se cansa logo, mas precisa manter sua postura de soldado real. Prende as pessoas com lençóis, mostra-se rude, onipotente e eficiente para agradar a Rainha, mas coloca os prisioneiros na "cela" com delicadeza e sempre pergunta se está tudo bem, odeia machucar pessoas, prefere machucar a si mesmo do que ferir alguém, mesmo com tanta amorosidade, vive sozinho, porque, apesar de mostrar-se tão bom, no fundo, no fundo, não se acha tão bom assim, nem para os outros e nem para si mesmo. Tudo isto surgiu no monólogo:
A rigidez do corpo mostra um homem impenetrável, mas um olhar de medo das pessoas causado pela malvada Rainha, o afeta, mas não interfere em nada, segue ordens, calado, porém, gritando por dentro.
Todos os personagens que eu interpreto no espetáculo têm uma coisa em comum: as minhas sombras, e não tenho vergonha de dizer. Me é experiência viver essas sombras, tal como o é sentir a devolutiva dos outros sobre isto, sobre mim. Vejamos:
O Soldado do Reino: tem lá os seus 37 anos, tem a postura rígida, porém, é um grande medroso e também curioso. Adora espiar o que as rainha faz com seus subalternos, mas quando ouve a famosa frase "cortem-lhe a cabeça", fica desajeitado e nunca consegue cortar uma cabeça de ninguém. É solitário e sua missão é andar sempre ao lado da rainha. Se sair, que seja breve. Carcereiro do ofício, escravo do trabalho, porém está sempre lá, com os seus pés bem ao lado da rainha, cumprindo desajeitadamente seu papel de soldado real. Tem um andar partiturizado, seus braços doem de tanto ficam para trás, não aguenta correr muito, se cansa logo, mas precisa manter sua postura de soldado real. Prende as pessoas com lençóis, mostra-se rude, onipotente e eficiente para agradar a Rainha, mas coloca os prisioneiros na "cela" com delicadeza e sempre pergunta se está tudo bem, odeia machucar pessoas, prefere machucar a si mesmo do que ferir alguém, mesmo com tanta amorosidade, vive sozinho, porque, apesar de mostrar-se tão bom, no fundo, no fundo, não se acha tão bom assim, nem para os outros e nem para si mesmo. Tudo isto surgiu no monólogo:
A rigidez do corpo mostra um homem impenetrável, mas um olhar de medo das pessoas causado pela malvada Rainha, o afeta, mas não interfere em nada, segue ordens, calado, porém, gritando por dentro.

O Dodô: Um humano-pássaro inteligente, já um ancião de 60 anos, sábio, eu diria que o mais sábio do bando e também o mais incompreendido. Dodê demorou muito até conseguir se autoafirmar, mas depois que aprendeu isto, não mais se conteve. Ele é prático, gosta de comandar apenas quando tem certeza do que está fazendo, o que denota uma insegurança que carrega consigo de não arriscar com as incertezas. Dodô é justo, apesar de ser sábio, ele não utiliza disso para menorizar seus parceiros, ele deixa que as pessoas exponham suas opiniões, afinal de contas, ele adora ouvir opiniões e pensar sobre elas. Se afora com confusões e quer dar soluções rápidas aos problemas, não é a toa que ele sugere que a assembleia seja suspensa. Seu senso de justiça se expressa quando concorda que a Alice também merece um presente, apensar de ele não ter o que oferecer, procura com a própria e faz uma reverência enaltecendo a menina pelos prêmios. Apesar de muito experiente e procurar estudar sempre que pode, Dodô não é muito disciplinado, pelo contrário, é até um pouco desequilibrado até na forma desajeitada de sentir frio, ele fecha a boca e sente apenas com o corpo, até hoje não se sabe o som que o Dodô emite, ele prefere observar e formular hipóteses, adora terno, mas sua elegância não se mantém por muito tempo.

Toda a criação relacionada a composição externa do Dodô só foi possível após essa lembrança da Narceja, do filme "Up Altas Aventuras", uma obra marcante pra mim. Daí surgiu a ideia da roupa com detalhes em cetim colorido (que perdi o registro fotográfico) e também da prótese:
O resultado ficou bem próximo do que eu esperei:
A Duquesa: Tem uma personalidade forte, tão petulante quanto Alice. Uma senhora de 60 anos que tem um bebê que não para de chorar um segundo. Ela também não leva muito jeito para ser mãe. É fria, quase não tem expressões de nada, não se incomoda com a pimenta e o barulho da sua casa, o contrário acontece com bebê, que por esse motivo chora em seus ouvidos incessantemente, mas ela também não se incomoda com a criança, contudo, ela odeia visitas. "Eu odeio visitas" foi o supra-objetivo pulsional para as falas da Duquesa quando Alice entra em sua casa.
A composição da Duquesa demandou certo tempo, cuidado e sofrimento, porque desde o princípio, eu senti ainda na narrativa de Lewis Carroll as características da me dando um pelo tapa na cara, era eu. Sou professor de crianças, lido com elas basicamente todos os dias, em contrapartida, me enquadra o perfil de prepotente e arrogante, tal qual a Duquesa. A única diferença entre nós, é que meus alunos são afetados pela parte luminosa de mim, o amor, o cuidado, a paixão por estar com eles, mas ela me fez entrar em contato com dois polos pessoais que se tensionavam. A tensão não acontecia apenas sobre um "quem" assumidamente Duquesa que eu tenho, mas também, por ter de assumir esse quem num palco e ter contato com ele diante dos olhos dos outros. Me senti feliz pelo desafio de ME expor Duquesa, meus aspectos sombrios, ao meu ver, não podem ferir ninguém, e a arte, a enxergo como uma via de acesso indolor para o que temos de pior em nós.
É importante problematizar o "indolor", porque entendo, nesse contexto, não como algo que não doa, mas como algo que não machuca. O processo de metamorfose é doroso, mas isso não machuca, porque não deixa marcas de algo que foi ruim ou algo que eu não queira viver nunca mais. Indolor no sentido de que, estou resignificando meus monstros, que continuam monstruosos, mas em favor da arte. Encontro nesta fala de Junior (2010, p. 252) um aparato para meu discurso no que diz respeito a Dor x Metamorfose.
As fotos abaixo são de um ensaio geral. Fiz monólogos, preparei meu corpo, minha mente e com uma energia pulsante que queria vazar pelo choro, mas vazou pela cena. Em outros ensaios, os primeiros, por exemplo, muitas vezes não consegui suportar permanecer na faculdade, eu precisava ficar sozinho com o meu eu-Duquesa. Eu precisava digerir aquilo tudo e dizer para ela (para minha sobra) que, apesar de sombra, ela era potencialmente criativa e eu gostava de sê-la. Em outros diálogos eu me punia, mas como vim ao teatro para cuidar de mim, eu não podia me esconder atrás de um personagem e dizer aos meus colegas sobre essas angústias, foi terapia.
O interno da Duquesa estava num caminho de construção que não se encerrou até o dia da estreia. Os monólogos eram provas vivas de que ela precisava sempre de um "detalhe imaginativo¹".
Muitos materiais compuseram a visualidade da personagem, materiais que se tensionavam também com partituras importadas de outros colegas e que fugiam do sentido e da coerência de uma ação, "trata de um encontro híbrido de movimentos para uma significação plural, coral." (BRAGA, 2007, p. 1)
Me apropriei dessa citação também quando criei o figurino da Duquesa. Melhor, a citação me invadiu e me despertou a desafiar as formas e os traços do figurino, um elemento de estranhamento, me levou a me apropriar das incoerências externas, a silhueta inusitada, o empoderamento da sombra, a sombra que transpassava aos olhos do espectador. Mudei completamente o meu desenho, de um vestido clássico, para uma indumentária poética:
Nunca vou me esquecer... na primeira aula debatemos o texto de Bya Braga "Ator de prova: questões para uma ação-física coral", e logo depois era aula de figurino e fui com pressa, com sede, com vontade de tirar meus materiais de desenho e recriar. Peguei referências da Mortiça e de uma foto que vi num vídeo de um figurino com um arco. O vestido do qual sairia o figurino da Duquesa possuía as duas mangas, eu quis arrancar uma, porque enxerguei a visualidade do monstro no jogo com a silhueta assimétrica, com o desenho do personagem (corpo + figurino):
Nessa criação é que senti que minha Duquesa estava pronta! Senti!
A Alice Dark (negra ou sombra): É minha sombra de prepotência, de ironia, de irreverência, também de auto-confiança, esta última que não aparece muito no dia-a-dia, a minha Alice sabia quem era ela, qual o seu papel e seu sentido de existir neste espetáculo. Essa auto-confiança raramente se manifesta enquanto eu em primeira pessoa nos meus outros afazeres. Me pergunto: será que não sei qual o sentido do meu existir, minha missão, o meu papel aqui na terra e por isso a auto-confiança não faz parte dos meus auto-adjetivos? Este pepel surgiu de uma intromissão na leitura dramática porque ninguém se prontificou além de mim, Alberto e Samires, fomos, portanto, três Alices Negras, cada qual com seus aspectos sombrios. Em relação a Duquesa, foi muito menos doloroso pra mim fazê-la, porque eu já estava familiarizado com os adjetivos que compuseram a diegese da personagem. Eu sempre tive a consciência de que eu era irônico algumas vezes e, na faculdade, me tornei irreverente. A auto-confiança reflete-se em dois polos no meu interior que se chocam: a falta dela e a necessidade de exercê-la. Foram dois elementos que se opuseram e geraram impulso o tempo inteiro. Eu me senti satisfeito com essa Alice porque a sua ironia divertia e não ofendia, dando lugar mais uma vez à prática indolor das sombras por intermédio da arte. Sempre tive o cuidado de não deixar que meus defeitos atingissem as pessoas, antes, minha preocupação era de não assumir isso, mas com a Arteterapia aprendi a "me ser" e a "me assumir" para mim e para os outros, e também aprendi que a única coisa que não podemos permitir é que nossas imperfeições desmoralizem ou desrespeitem o próximo.
Eu queria um figurino ousado que expusesse o meu corpo e potencializasse o andar que construí para Alice, marcado por ritmo, velocidade e uma sensualidade masculina, que seria o máximo que eu ia conseguir. Criei este modelo:
E com a ajuda da Sami Gotto, colega de sala, pesquisadora e talentosíssima atriz, tornamos possível o pensamento:
Ficou muitíssimo próximo do que pensei e me orgulhei muito de ver esse acontecimento. A sensação de ver nossos sonhos, nossa construção, nossa criação palpável é um despertar de sorrisos e uma experiência do possível. É possível!
Alice: A melhor parte do pior de mim...
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Notas
¹ O "detalhe imaginativo" é uma herança de Stanislavski citada por Rejane Arruda em aula como um método de resgate de impulso numa cena ensaiada anteriormente ou muitas vezes repetida. Trata-se, metaforicamente, de uma espécie de enraizamento de uma fala interna ou então do próprio monólogo, quando inserimos nesse discurso interno já feito, um elemento (afetivo ou não) que gere um movimento interno novo provocador de pulsão.
Referências Bibliográficas
JUNIOR, Carlos Augusto Peixoto. O corpo e o devir-monstro. Revista Lugar Comum. Nº25-26, pp. 245 - 255. Rio de Janeiro: Uninômade Brasil, 2010. Disponível na internet: <http://uninomade.net/wp-content/files_mf/110810121112O%20corpo%20e%20o%20devir-monstro%20-%20Carlos%20Augusto%20Peixoto%20Junior.pdf.
BRAGA, Bya. Ator de prova: questões para uma ação-física coral. IV Reunião Científica de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas. UFMG, 2007.
A composição da Duquesa demandou certo tempo, cuidado e sofrimento, porque desde o princípio, eu senti ainda na narrativa de Lewis Carroll as características da me dando um pelo tapa na cara, era eu. Sou professor de crianças, lido com elas basicamente todos os dias, em contrapartida, me enquadra o perfil de prepotente e arrogante, tal qual a Duquesa. A única diferença entre nós, é que meus alunos são afetados pela parte luminosa de mim, o amor, o cuidado, a paixão por estar com eles, mas ela me fez entrar em contato com dois polos pessoais que se tensionavam. A tensão não acontecia apenas sobre um "quem" assumidamente Duquesa que eu tenho, mas também, por ter de assumir esse quem num palco e ter contato com ele diante dos olhos dos outros. Me senti feliz pelo desafio de ME expor Duquesa, meus aspectos sombrios, ao meu ver, não podem ferir ninguém, e a arte, a enxergo como uma via de acesso indolor para o que temos de pior em nós.
É importante problematizar o "indolor", porque entendo, nesse contexto, não como algo que não doa, mas como algo que não machuca. O processo de metamorfose é doroso, mas isso não machuca, porque não deixa marcas de algo que foi ruim ou algo que eu não queira viver nunca mais. Indolor no sentido de que, estou resignificando meus monstros, que continuam monstruosos, mas em favor da arte. Encontro nesta fala de Junior (2010, p. 252) um aparato para meu discurso no que diz respeito a Dor x Metamorfose.
Se “o monstro pode ser reconhecido como potência de metamorfose” (Negri, 2002, p. 137), toda metamorfose implica passagens. A metamorfose é sempre singular porque se constitui na criação de um novo ser, para além da borda do tempo, onde a marca da singularidade se coloca.
Estou emprestando meus aspectos monstruoso para produção de poética. Estou tocando e excitando energias de um aspecto sombrio para um ato virtuoso que é a encenação. Isso não me fere a ponto de deixar marcas corrosivas ou cicatrizes profundas, não! É um processo que dói porque vejo a coisa que sou, é um processo que não machuca porque a coisa não fere o próximo e produz teatralidade.
As fotos abaixo são de um ensaio geral. Fiz monólogos, preparei meu corpo, minha mente e com uma energia pulsante que queria vazar pelo choro, mas vazou pela cena. Em outros ensaios, os primeiros, por exemplo, muitas vezes não consegui suportar permanecer na faculdade, eu precisava ficar sozinho com o meu eu-Duquesa. Eu precisava digerir aquilo tudo e dizer para ela (para minha sobra) que, apesar de sombra, ela era potencialmente criativa e eu gostava de sê-la. Em outros diálogos eu me punia, mas como vim ao teatro para cuidar de mim, eu não podia me esconder atrás de um personagem e dizer aos meus colegas sobre essas angústias, foi terapia.
O interno da Duquesa estava num caminho de construção que não se encerrou até o dia da estreia. Os monólogos eram provas vivas de que ela precisava sempre de um "detalhe imaginativo¹".
Muitos materiais compuseram a visualidade da personagem, materiais que se tensionavam também com partituras importadas de outros colegas e que fugiam do sentido e da coerência de uma ação, "trata de um encontro híbrido de movimentos para uma significação plural, coral." (BRAGA, 2007, p. 1)
A figura formada não precisa se revelar coesa. Provavelmente aparecerá fracionada e simbólica (podendo até nem ser totalmente orgânica no sentido da natureza humana). O sujeito se dissolve nas suas vozes internas e grita ações. Ele se trans-figura, transpõe, se exalta, transcria e até se deforma ou paralisa. Às vezes histeriza10. A essência histérica na ação vem a ser um excesso humano possível, aceitável e pode ser até admirável numa composição cênica. (idem, p. 2)
Me apropriei dessa citação também quando criei o figurino da Duquesa. Melhor, a citação me invadiu e me despertou a desafiar as formas e os traços do figurino, um elemento de estranhamento, me levou a me apropriar das incoerências externas, a silhueta inusitada, o empoderamento da sombra, a sombra que transpassava aos olhos do espectador. Mudei completamente o meu desenho, de um vestido clássico, para uma indumentária poética:
Nunca vou me esquecer... na primeira aula debatemos o texto de Bya Braga "Ator de prova: questões para uma ação-física coral", e logo depois era aula de figurino e fui com pressa, com sede, com vontade de tirar meus materiais de desenho e recriar. Peguei referências da Mortiça e de uma foto que vi num vídeo de um figurino com um arco. O vestido do qual sairia o figurino da Duquesa possuía as duas mangas, eu quis arrancar uma, porque enxerguei a visualidade do monstro no jogo com a silhueta assimétrica, com o desenho do personagem (corpo + figurino):
A Alice Dark (negra ou sombra): É minha sombra de prepotência, de ironia, de irreverência, também de auto-confiança, esta última que não aparece muito no dia-a-dia, a minha Alice sabia quem era ela, qual o seu papel e seu sentido de existir neste espetáculo. Essa auto-confiança raramente se manifesta enquanto eu em primeira pessoa nos meus outros afazeres. Me pergunto: será que não sei qual o sentido do meu existir, minha missão, o meu papel aqui na terra e por isso a auto-confiança não faz parte dos meus auto-adjetivos? Este pepel surgiu de uma intromissão na leitura dramática porque ninguém se prontificou além de mim, Alberto e Samires, fomos, portanto, três Alices Negras, cada qual com seus aspectos sombrios. Em relação a Duquesa, foi muito menos doloroso pra mim fazê-la, porque eu já estava familiarizado com os adjetivos que compuseram a diegese da personagem. Eu sempre tive a consciência de que eu era irônico algumas vezes e, na faculdade, me tornei irreverente. A auto-confiança reflete-se em dois polos no meu interior que se chocam: a falta dela e a necessidade de exercê-la. Foram dois elementos que se opuseram e geraram impulso o tempo inteiro. Eu me senti satisfeito com essa Alice porque a sua ironia divertia e não ofendia, dando lugar mais uma vez à prática indolor das sombras por intermédio da arte. Sempre tive o cuidado de não deixar que meus defeitos atingissem as pessoas, antes, minha preocupação era de não assumir isso, mas com a Arteterapia aprendi a "me ser" e a "me assumir" para mim e para os outros, e também aprendi que a única coisa que não podemos permitir é que nossas imperfeições desmoralizem ou desrespeitem o próximo.
Eu queria um figurino ousado que expusesse o meu corpo e potencializasse o andar que construí para Alice, marcado por ritmo, velocidade e uma sensualidade masculina, que seria o máximo que eu ia conseguir. Criei este modelo:
E com a ajuda da Sami Gotto, colega de sala, pesquisadora e talentosíssima atriz, tornamos possível o pensamento:
Ficou muitíssimo próximo do que pensei e me orgulhei muito de ver esse acontecimento. A sensação de ver nossos sonhos, nossa construção, nossa criação palpável é um despertar de sorrisos e uma experiência do possível. É possível!
"Seu corpo difere do corpo normal na medida em que revela o oculto, algo de disforme, de visceral, de “interior”, uma espécie de obscenidade orgânica. Tal obscenidade, ele não apenas a exibe como também a desdobra, virando a pele do avesso, desfraldando-a, sem se preocupar com o olhar do outro, para fasciná-lo."(JUNIOR, 2010, p. 252)
Alice: A melhor parte do pior de mim...
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Notas
¹ O "detalhe imaginativo" é uma herança de Stanislavski citada por Rejane Arruda em aula como um método de resgate de impulso numa cena ensaiada anteriormente ou muitas vezes repetida. Trata-se, metaforicamente, de uma espécie de enraizamento de uma fala interna ou então do próprio monólogo, quando inserimos nesse discurso interno já feito, um elemento (afetivo ou não) que gere um movimento interno novo provocador de pulsão.
Referências Bibliográficas
JUNIOR, Carlos Augusto Peixoto. O corpo e o devir-monstro. Revista Lugar Comum. Nº25-26, pp. 245 - 255. Rio de Janeiro: Uninômade Brasil, 2010. Disponível na internet: <http://uninomade.net/wp-content/files_mf/110810121112O%20corpo%20e%20o%20devir-monstro%20-%20Carlos%20Augusto%20Peixoto%20Junior.pdf.
BRAGA, Bya. Ator de prova: questões para uma ação-física coral. IV Reunião Científica de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas. UFMG, 2007.

















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