domingo, 29 de maio de 2016

JOGOS NO LABORATÓRIO DE ARTES CÊNICAS

Tudo serve ao teatro, cada partícula da nossa memória...

No final do ano passado, no caminho de volta para Linhares, viagem que fizemos afim de divulgarmos um curso, eu e meu amigo e também colega de trabalho naquela circunstância, compartilhamos diversos conhecimentos sobre diversos assuntos, culturais, musicais e até culinários. Ele havia me dito que acompanhava a 12 séries e gostava de assistir a programas de culinária, a respeito desse último, conversamos um pouco e ele fez referência a um chef que cozia os alimentos lentamente, por 8 horas, no vapor libertado pelas águas ferventes vulcânicas, por fim, ele fez uma fala brilhante: o chef não vende um prato, ele vende uma ideia., fazendo analogia com o seu trabalho de publicitário. Quem diria que essa lembrança seria útil? E foi muito bem utilizada. Vou explicar o porquê. 

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     Na última aula de jogo fizemos uma “tempestade de ideias” com a tríade spoliana (Quem, Onde, O quê), afim de circular mais ideias e ampliar nosso repertório. Essa iniciativa objetivou o enriquecimento de possibilidades principalmente para as pessoas mais tímidas no palco, porque é considerável que quando a timidez impera numa improvisação cogita-se a possibilidade de uma falha na estrutura de jogo, essa falha corresponde às escolhas erradas de um “quem”, por exemplo, um “quem” com o qual o ator não consegue se plugar internamente. Poderíamos agregar também o fato de que o palco também é um ambiente que intimida, contudo, quando há prazer num “quem”, quando há vontade por esse “quem”, o palco deixa de ser o maior obstáculo. É importante a definição clara que um “quem” com o qual estamos familiarizados ou que possuamos por ele certo afeto, essa segurança do “quem”, contudo, não representa e nem deve abrir mão da insegurança de estar no palco, afinal de contas, essa vulnerabilidade no palco é situação sine qua non¹ para uma atuação intensa. 

     Arruda (2016, p. 2) dá a esta vulnerabilidade o valor de “atualização da memória corporal (por trazer de volta os registros antigos daquele corpo e suas grafias de afeto)”. Aplicando esse conhecimento à discussão, hipoteticamente é possível considerar que, esse “quem” bem definido, ou seja, esse “eu-circunstanciado” muito bem definido no enquadramento de jogo e interno, é capaz de representar o seu papel sem receio e agregar as incidências dentro da improvisação considerando, a partir do seu enquadramento, o que serve para seu personagem e passando adiante o que não lhe é útil. Nesse sentido, também fazemos uma referência indireta à “Política do E”, que 

“implica que o ator pode experimentar modalidades diferentes em arranjos diversos, trazendo uma perspectiva de investigação de poéticas resultantes conforme o arranjo.” (ARRUDA, 2016, p. 9)

Quero defender, portanto que, a timidez precisa existir porque ela pode ser ferramenta de uma pulsão cênica, ela não deve frear o trabalho, mas deve ser posta como um desafio, devemos jogá-la no palco, caso ela seja mais forte e exploda causando confusão a ponto de comprometer o trabalho, Bogart (2011, p. 135) nos dá um ótimo conselho ou uma técnica: 

"Em caso de dúvida, quando você estiver perdido, não pare. Em vez disso, concentre-se no detalge. Olhe em torno, encontre um detalhe para se concentrar e faça isso. Esqueça um pouco o quadro geral. Ponha sua energia apenas nos detalhes do que já está ali. 

A aula


Na aula de jogo, na construção do "Quem, Onde, O quê", o grupo propôs um programa de culinária e imediatamente me lembrei do tal chef, por não conhecer mais a fundo e por não saber se era do Brasil ou não, o então chef (eu) "Horronirrintorrinco", era Húngaro e estava no concurso de melhor prato no programa “MasterChef”, em que existe um crítico culinário que prova todos os pratos e decide qual o melhor na sua concepção. 

     MAS, como estamos trabalhando um “O quê” com problema a ser solucionado, um dos pratos está envenenado e o apresentador (crítico) precisa descobrir qual é. Fizemos o sorteio na hora da apresentação.

     Um detalhe importante: nós chf’s, não usávamos nossas próprias mãos, nossos parceiros de cena ficavam atrás de nós e fazendo das suas, as nossas mãos. Conforme o que eles faziam com as mãos, tínhamos de expressar com todo o nosso corpo. Foi hilário. 

      Ainda quero dar lugar a uma análise importante. A professora Rejane sempre afirma nas aulas que não é favor da separação ou mistura dos grupos (panelinhas) já formados na sala, porque essas pessoas já têm laços, pensamentos e afetos em comum, estabelecem bem um diálogo, se conhecem, têm vínculo e isso é ideal para uma improvisação de grupo. Certamente o nosso grupo fez um bom trabalho porque todos tínhamos um vínculo e queríamos fazer aquilo, queríamos colocar em ação aquelas ideias. 

     Pupo (2007, p. 261) faz alusão a Viola Spolin sobre a importância que possui o grupo, a parceria, dentro de um jogo de improviso: 

Ao entrar em relação com o parceiro de jogo e com ele construir fisicamente uma ficção partilhada com os jogadores da plateia, aprende-se como se dá a significação no teatro. “Sem parceiro não há jogo”, a máxima recorrente da autora, ilustra bem o caminho proposto.

      Vamos às regras: 
1. Trocar de paz quando o apresentador disser “por exemplo”;
2. Quem ficar de fora precisa fazer alguma ação inerente à cena (interpretar em librar, varrer o chão, filmar);
3. O apresentador deve descobrir quem está com o prato envenenado. 

      A escolha de fazer um Chef Húngaro decorreu de duas situações: em primeira instância me lembrei do jogo “trocando de idiomas”, do programa Quinta Categoria da extinta MTV. 



      Em segunda instância, meu pensamento logo se direcionou a um interesse que me despertou nas aulas de História sobre Teatro do Absurdo, que é a utilização de uma língua desconhecida², ou um hibridismo de línguas como fez James Joyce, em sua obra “Fineggans Wake”, em que mistura mais de 50 idiomas. 

      Misturando esses ingredientes, assim nasceu Horronintorrinco, um famoso Chef Húngaro. 

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Notas

¹ “sem a/o qual não pode ser”. Refere-se a uma ação cuja condição ou ingrediente é indispensável e essencial.

² Na aula de Teatro do Absurdo, tive duas ideias de espetáculos que estão sendo amadurecidas ainda, mas meu interesse é encenar “Sonho de uma Noite de Verão”, se Shakspeare (peça com a qual estamos trabalhando em Dramaturgia) sob o tratamento da estética do Absurdo, considerando que a composição do roteiro dá esse espaço uma vez que trata de uma peça cômica e com personagens de garantem o estranhamento e o humor. A outra ideia é traduzir um roteiro de alguma peça ainda não definida através do Google tradutor, porque entendemos a tradução por esse mecanismo é bastante destoante da realidade e muitas vezes contorce os sentidos além de, muitas vezes, eliminar a coerência e a coesão de uma frase. Seria uma característica do Absurdo. Ambas ideias estão sendo compartilhadas e desenvolvidas com minha colega de sala Sami Cassiano. 


Referências

BOGART, Anne. A preparação do diretor: sete ensaios sobre arte e teatro. São Paulo: Wmf Martins Fontes, 2011.

ARRUDA, Rejane Kasting. Arranjo e enquadramento na política do “E”:
por uma Pedagogia do teatro híbrida. Disponível em: <http://revistas.udesc.br/index.php/urdimento/article/view/1414573101242015176> Acesso em: maio/2016

PIRES, Miguel. O cozido do vulcão. Disponível em: <http://mesamarcada.blogs.sapo.pt/o-cozido-do-vulcao-624586> Acesso em maio/2016. 

PUPO, Maria Lúcia de Souza Barros. Jogos teatrais na sala de aula: um manual para o professor, de Viola Spolin. São Paulo: Perspectiva, 2007.





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