por Allan Maykson Longui
de Araujo²
O
traje de cena é, contemporaneamente entendido, como aquele que é utilizado em
qualquer contexto de expressão artística, alcançando as esferas da dança, do
circo, da mímica, da performance, do teatro e outras variantes que vêm surgindo
e tomando espaço no cenário atual.
A história do traje de cena é
imensa, mas é importante sublinhar que seu aparecimento acontece no Teatro
Grego em, aproximadamente, 500 anos antes de Cristo, quando na Grécia acontecia
a grande Dionisíaca, uma longa e farta festa repleta de bebidas, orgias e
rituais ao deus Dionísio.
Séculos mais tarde a Comédia
Dell’Arte, que fica popular, cria trajes que se articulam às identidades de
seus personagens, de sorte que, através da indumentária, eles eram
identificados pelo seu público. E assim por diante o traje de cena foi passando
por adaptações, evoluções, modificações, à maneira que o artista pensava
empregar o seu pensamento sobre ele. O traje de cena começa a ser pensado como
um elemento capaz de comunicar ao espectador sobre o personagem.
Nesse sentido, nos relata Pereira e
Viana (2015, p. 7) que
“No fim do século XIX novos pesquisadores
começaram a encarar o traje como um complemento fundamental da cena no sentido
de adequação do traje à personagem.”
Esse
pensamento qualifica o traje de cena como um constructo do ator, como um
elemento de vínculo entre palco e plateia, entre ator e espetador,
“transferindo imagens, causando impressões...” (idem).
Quando falo sobre o “constructo do
ator”, me refiro ao processo criativo sobre o qual o texto cita, esse processo
caracteriza-se pela elaboração dos trajes ao longo dos ensaios, não posso
deixar de dizer sobre o processo colaborativo do diretor e também do ou da
figurinista. “O traje de cena é o resultado final da combinação dos anseios de
todos os envolvidos numa produção” (idem).
Pereira e Viana (idem, p. 8) nos indagam: “você
desenha?”. Segundo eles, todos desenham, mas quando nos atentamos aos
julgamentos dos outros o trabalho complica o processo de criação. Contudo, os
autores nos apresentam a facilidade dos modelos prontos como uma solução para
quem tem mais dificuldades. Os modelos consistem em um desenho de um manequim
sobre o qual podemos desenvolver nosso pensamento sobre o figurino que
desejamos criar.
Os autores orientam a fazer
cópias ou reproduzir à maneira que nos
for mais conveniente para que tenhamos vários modelos a fim de que
experimentemos nossos projetos. Também nos oferecem alternativas de técnicas
simples, com materiais simples e sugere que coloquemos amostras de tecidos
sobre os desenhos até que encontremos o que nos satisfaça.
Considerando que o traje “é um dos
primeiros elementos a serem oferecidos aos olhos do público”, o que é que ele
deve ter? Os autores dão exemplos de “elementos quase óbvios” sobre isto.
Citarei alguns:
· Localização
geográfica: um ator usando roupas de esquimó indica que ele estava no Pólo
Norte;
· O
clima ou a época do ano: o casaco de pele mostra o inverno; o maiô pode tratar
de um clima mais quente;
· O
sexo do portador: trajes masculinos ou femininos;
· A
posição (classe social): a riqueza dos trajes; (idem, p. 11-12)
Apesar
da descrição, os autores ainda pontuam que “nas artes tudo pode ser
subvertido”, então os conceitos, elementos e visualidades não fecham num
discurso, não estão prontos e a acabamos.
Eles
ainda dissertam sobre elementos não óbvios e que necessitam de “muito mais
preparação, investigação e elaboração”, “[...] são eles: cor, forma, volume,
textura, movimento e origem”.
Finalizo
esta resenha refletindo sobre o meu deleite nas teorias da indumentária,
percebendo que a personalidade do personagem pode estar bem diante dos olhos do
espectador, e que mesmo assim, o figurino se enquadra numa visualidade que
comunica um sentido em diálogo com toda uma produção, não tem um fim em si
mesmo. Ele é tão inacabado quanto são os nossos personagens-nós.
_________________________________________________________________________
Notas
¹ Livro de Fausto Viana e Dalmir Rogério Pereira que compõe a
bibliografia da disciplina de Figurino II do curso de Artes Cênicas da
Universidade Vila Velha.
² Graduado
em Pedagogia e especialista em Competências Docentes com Ênfase no Ensino
Superior pela Faculdade Pitágoras - Campus Linhares (ES). Atualmente estuda
pós-graduação em Arteterapia pelo Instituto Fênix de Ensino e Pesquisa e,
concomitantemente, Licenciatura em Artes Cênicas pela Universidade Vila Velha.
É integrante do grupo de pesquisa "Poéticas da Cena Contemporânea",
com seu projeto “Intrateatro: procedimentos cênicos aplicados à Arteterapia”
sob a linha de pesquisa “A Poética Cênica, Seus Dispositivos e Estratégias de
Transmissão”. Possui experiência profissional em cursos de pós-graduação e
graduação como docente convidado e substituo, e em todos os níveis da educação
básica como professor, coordenador de cursos preparatórios e coordenador geral.
É membro-fundador da dupla Meninice de música, poesia e contação de histórias e
da CIA “Cômodos” de teatro.
Referência
Bibliográfica
PEREIRA, D. R; VIANA,
F. Figurino e Cenografia para Iniciantes. São Paulo: Estação das Letras e
Cores, 2015.
Nenhum comentário:
Postar um comentário