sábado, 3 de junho de 2017

RESENHA SOBRE O FRAGMENTO “O QUE É TRAJE DE CENA?” DO LIVRO “FIGURINO E CENOGRAFIA PARA INICIANTES” ¹

por Allan Maykson Longui de Araujo²

O traje de cena é, contemporaneamente entendido, como aquele que é utilizado em qualquer contexto de expressão artística, alcançando as esferas da dança, do circo, da mímica, da performance, do teatro e outras variantes que vêm surgindo e tomando espaço no cenário atual.
            A história do traje de cena é imensa, mas é importante sublinhar que seu aparecimento acontece no Teatro Grego em, aproximadamente, 500 anos antes de Cristo, quando na Grécia acontecia a grande Dionisíaca, uma longa e farta festa repleta de bebidas, orgias e rituais ao deus Dionísio.
            Séculos mais tarde a Comédia Dell’Arte, que fica popular, cria trajes que se articulam às identidades de seus personagens, de sorte que, através da indumentária, eles eram identificados pelo seu público. E assim por diante o traje de cena foi passando por adaptações, evoluções, modificações, à maneira que o artista pensava empregar o seu pensamento sobre ele. O traje de cena começa a ser pensado como um elemento capaz de comunicar ao espectador sobre o personagem.
            Nesse sentido, nos relata Pereira e Viana (2015, p. 7) que
 “No fim do século XIX novos pesquisadores começaram a encarar o traje como um complemento fundamental da cena no sentido de adequação do traje à personagem.”
         Esse pensamento qualifica o traje de cena como um constructo do ator, como um elemento de vínculo entre palco e plateia, entre ator e espetador, “transferindo imagens, causando impressões...” (idem).
            Quando falo sobre o “constructo do ator”, me refiro ao processo criativo sobre o qual o texto cita, esse processo caracteriza-se pela elaboração dos trajes ao longo dos ensaios, não posso deixar de dizer sobre o processo colaborativo do diretor e também do ou da figurinista. “O traje de cena é o resultado final da combinação dos anseios de todos os envolvidos numa produção” (idem).
            Pereira e Viana (idem, p. 8) nos indagam: “você desenha?”. Segundo eles, todos desenham, mas quando nos atentamos aos julgamentos dos outros o trabalho complica o processo de criação. Contudo, os autores nos apresentam a facilidade dos modelos prontos como uma solução para quem tem mais dificuldades. Os modelos consistem em um desenho de um manequim sobre o qual podemos desenvolver nosso pensamento sobre o figurino que desejamos criar.
            Os autores orientam a fazer cópias  ou reproduzir à maneira que nos for mais conveniente para que tenhamos vários modelos a fim de que experimentemos nossos projetos. Também nos oferecem alternativas de técnicas simples, com materiais simples e sugere que coloquemos amostras de tecidos sobre os desenhos até que encontremos o que nos satisfaça.
            Considerando que o traje “é um dos primeiros elementos a serem oferecidos aos olhos do público”, o que é que ele deve ter? Os autores dão exemplos de “elementos quase óbvios” sobre isto. Citarei alguns:
·      Localização geográfica: um ator usando roupas de esquimó indica que ele estava no Pólo Norte;
·      O clima ou a época do ano: o casaco de pele mostra o inverno; o maiô pode tratar de um clima mais quente;
·      O sexo do portador: trajes masculinos ou femininos;
·      A posição (classe social): a riqueza dos trajes; (idem, p. 11-12)
Apesar da descrição, os autores ainda pontuam que “nas artes tudo pode ser subvertido”, então os conceitos, elementos e visualidades não fecham num discurso, não estão prontos e a acabamos.
Eles ainda dissertam sobre elementos não óbvios e que necessitam de “muito mais preparação, investigação e elaboração”, “[...] são eles: cor, forma, volume, textura, movimento e origem”.
Finalizo esta resenha refletindo sobre o meu deleite nas teorias da indumentária, percebendo que a personalidade do personagem pode estar bem diante dos olhos do espectador, e que mesmo assim, o figurino se enquadra numa visualidade que comunica um sentido em diálogo com toda uma produção, não tem um fim em si mesmo. Ele é tão inacabado quanto são os nossos personagens-nós.




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Notas
¹ Livro de Fausto Viana e Dalmir Rogério Pereira que compõe a bibliografia da disciplina de Figurino II do curso de Artes Cênicas da Universidade Vila Velha.
 ² Graduado em Pedagogia e especialista em Competências Docentes com Ênfase no Ensino Superior pela Faculdade Pitágoras - Campus Linhares (ES). Atualmente estuda pós-graduação em Arteterapia pelo Instituto Fênix de Ensino e Pesquisa e, concomitantemente, Licenciatura em Artes Cênicas pela Universidade Vila Velha. É integrante do grupo de pesquisa "Poéticas da Cena Contemporânea", com seu projeto “Intrateatro: procedimentos cênicos aplicados à Arteterapia” sob a linha de pesquisa “A Poética Cênica, Seus Dispositivos e Estratégias de Transmissão”. Possui experiência profissional em cursos de pós-graduação e graduação como docente convidado e substituo, e em todos os níveis da educação básica como professor, coordenador de cursos preparatórios e coordenador geral. É membro-fundador da dupla Meninice de música, poesia e contação de histórias e da CIA “Cômodos” de teatro.

Referência Bibliográfica
PEREIRA, D. R; VIANA, F. Figurino e Cenografia para Iniciantes. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2015. 

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