domingo, 28 de agosto de 2016

ÊNFASE EM JOGOS TEATRAIS: PINOTES DO BRINCAR RECORTES DO ENCENAR

"Através deles [dos jogos], a criança desenvolve a linguagem, o pensamento, a socialização, a iniciativa e a auto-estima, preparando–se para ser um cidadão capaz de enfrentar desafios e participar na construção de um mundo melhor." 

Maria da Conceição Ramos


É inegável o potencial lúdico presente nos jogos tradicionais, que inclusive são eternos e sempre serão divertidos, socializadores e transmissores de valores e virtudes para a vida. Lamentável que grande parte das nossas crianças e adolescentes cada vez menos conhecem esses jogos e brincadeiras que ensinam sobre a vida de uma maneira indolor e eterna. 

      Escolhi um fragmento do artigo de Maria da Conceição, Jogar e Brincar¹ porque se traduzirmos para o contexto teatral, entendemos que os jogos desenvolvem a linguagem, o pensamento, a associação, a criatividade, a relação entre mundo imaginário e real, suscitando realidades, contextos, diegeses, e sobretudo, o acesso a esse mundo imaginário sem ferir a realidade. 

     Quando tratamos de Jogos Tradicionais não podemos deixar de discorrer um pouco sobre a nossa natureza, sobre o arquétipo da criança presente em todos nós. A felicidade em sua essência parece clichê ao mundo no qual estamos inseridos, mas é esta felicidade tão pouco vivida entre os adultos que suscita impressões, imagens, afetos, tão substanciais à criação cênica. 

      Jogar é interagir e aprender com o mundo, o teatro toma para si essa funcionalidade a criação de um mundo sobre o qual só nós enquanto jogadores poderemos agir, e só nós enquanto joguetes de nós mesmos, poderemos experimentar. A proposição de criar cena partindo de jogos tradicionais é muito eficiente quando pensamos em construir os jogos teatrais, a estrutura spoliana como o quem, onde, o quê. 

    Além disso, os jogos tradicionais excitam nosso corpo e nossa mente, porque necessita do movimento intenso do corpo, da comunicação exacerbada, do raciocínio rápido que implica uma movimentação interna. Por esses fatores, e outros que certamente desconheço, é que os jogos são eficientes na produção de fisicalidades, na expansão mental e plástico-corporal do ator. E para a construção de Alice, nada mais dialógico do que a busca de uma poética por meio de duas vias que se comunicam: a infância de Alice e a infância presente nos jogos tradicionais. Não que estejamos criando uma peça infantil, porém estamos resgatando diversos momentos de nossas vidas que podem se partiturizar e compor uma cena. Além do mais, estamos resgatando energias potenciais e criativas que estão na natureza humana e que, com o passar dos anos, negligenciamos. A energia, em Grotowiski é resgatável, e em Eugênio Barba é moderável. Nesse sentido, é possível com quem o ator cria uma auto-pedagogia de encenar. 

"Ele, o ator, deve então “aprender a aprender” (Barba e Savarese, 1995, p. 244), ou seja, descobrir como dinamizar suas energias  potenciais,  como  superar suas dificuldades corpóreas e vocais, como ir sempre “além”. Esse “aprender a aprender”, portanto, não pode estar embasado em fórmulas e estereótipos pré-estabelecidos." (FERRACINI, 2001, p. 108.)

       Queremos pontuar, portanto, que o ator criador do novo, do que não existe e tantas vezes do que é inacessível para o mundo inteiro, mas só ele o tem como conteúdo interno. Os jogos geram espontaneidade, exaustão e criatividade, aprendemos isso com o treinamento energético de Eugênio Barba, nas atuais práticas do LUME que se dedicam à investigação dessa fatia do trabalho atoral, também com Viola Spolin, quando afirma que

"A espontaneidade cria uma explosão que por um momento nos liberta de quadros de referência estáticos, da memória sufocada por velhos fatos e informações, de teorias não digeridas e técnicas que são na realidade descobertas de outros. A espontaneidade é um momento de liberdade pessoal quando estamos frente a frente com a realidade e a vemos, a exploramos e agimos em conformidade com ela. Nessa realidade, as nossas mínimas partes funcionam como um todo orgânico. É o momento de descoberta, de experiência, de expressão criativa."²
      Nesse sentido, os jogos excitam todas as esferas que compõe nossa individualidade e presenciamos a potência existente no pós-jogo. 

      Vejamos uma resolução de jogo teatral que eu e meu grupo fizemos. Foi um jogo que não respeitou algumas regras e por isso, não alcançou seu objetivo enquanto jogo, contudo, trouxe alguns recortes enquanto cena: 


       Nesta estrutura tínhamos uma menina perdida que caiu no buraco, o quarteto era o buraco, que só ia parar de gritar quando a menina chegasse no fundo, ao estar no fundo, a menina gritaria por "socorro" e suas amigas iriam tirá-la de lá, para isso, as amigas iriam inserir em suas resoluções do problema, ações dos jogos tradicionais que fizemos como pré-expressividade ou pré-jogo, nesse caso. 

     Essas resoluções poderiam ser o grande paredão da brincadeira "Pique-bandeirinha", o ato de espreitar, de olhar, o ato de tentar roubar a bandeira da mão do colega, enfim, inúmeras possibilidades, mas na pulsão do momento alguém se esqueceu da regra e a visualidade de recortes dos jogos não foi possível. 

     Apesar de disso, percebemos que o jogos é potente na criação de cena, na construção de resoluções cênicas, de identidade de personagem, e é criativo e inovador, porque não é usual. Como cita muito bem Ferracini (2001, p. 108-109)

"Não estamos atrás de fórmulas, de estereótipos, que são a prerrogativa dos profissionais. Não pretendemos responder a perguntas do tipo: Como se demonstra irritação? Como se anda? Como se deve representar Shakespeare? Pois essas são perguntas usualmente feitas. Em vez disso, devemos perguntar ao ator: Quais são os obstáculos que lhe impedem de realizar um ato  total,  que  deve engajar todos os seus recursos pscicofísicos, do mais instintivo ao mais racional? Devemos descobrir o que o atrapalha  na respiração, no movimento e - isto é o mais importante de tudo - no contato humano. Que resistências existem? Como podem ser eliminadas? Eu quero eliminar, tirar do ator tudo que seja fonte de distúrbio. Que só permaneça dentro dele o que for criativo. Trata-se  de uma liberação. Se nada permanecer é que ele não era um ser criativo" (Grotowski, 1987, p. 180).
      Podemos tomar os jogos tradicionais como um método de criação cênica criativo, prazeroso, exaustivo porém não cansativo, é pulsional, é energético. Quando analisamos o vídeo abaixo, percebemos uma riqueza dantesca de expressões faciais, de fisicalidades, de plasticidade vocal e corporal. Fazendo uma análise minuciosa apenas com esses poucos minutos, é possível construir um espetáculo inteiro, totalmente genuíno. 


       Em se tratando de pedagogia do ator, vê-se a possibilidade de jogos tradicionais serem uma técnica pessoal de criação cênica. Com os jogos é possível desconstruir e reconstruir, é possível limpar os resíduos de personagens passados e renovar os receptores sensíveis por meio da exaustão que gera, e ali, na ebulição, um personagem pode aparecer, ou uma partitura vocal e física e toda uma gama de conteúdos e materiais desde que direcionemos o treinamento, ou não, no teatro tudo é possível. A grande e deliciosa verdade na construção de Alice e que nos pinotes do brincar fazemos recortes do encenar, e está sendo um trabalho árduo, porém único. 


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Notas
¹ Disponível em http://www.posuniasselvi.com.br/artigos/rev01-07.pdf
² Disponível em http://www.escolamobile.com.br/emedio/vereda/arquivos/artes/1cart_cm_01.pdf


Referências Bibliográficas

FERRACINI, Renato. A arte de não interpretar como poesia corpórea do
ator. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2001.



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