"Sintetizo essa performance em 3 visualidades:
Poema na pele
Poema na voz
Poema no corpo"
Poema na pele
Poema na voz
Poema no corpo"
Os colegas leitores hão de concordar que o GIMNICA é válvula de dilatação. Impressionante. Sorte que nossa performance de Corpo será lá. Todos estão convidados!

Antes de a aula começar tivemos um tempo para nos preparar treinando os poemas e escrevendo no corpo. Confesso que em nenhuma dessas aulas posei para fotos, sempre estou imerso no universo que meu poema me exige e acabo não dando atenção às outras coisas, não se trata de prepotência ou egocentrismo, trata-se de uma verdade que necessita da minha presença integral.
Grafias no corpo é sensacional. Fico imaginando os espectadores espreitando na tentativa de lerem o que está escrito, mas se depararem com o desafio do corpo em constante movimento, transitando entre todo o espaço cênico no exercício das ações físicas, no embalo dos campos de visão. Contudo, além dessa procura atenta do espectador, podemos considerar o valor de estranhamento e de extra-cotidianidade que a grafia corporal representa. É impactante. Somos jornais ambulantes, levando a notícia que ninguém conhece: coisas sobre nós.

Eduesley, colega de sala
Procurando por referências a respeito da utilização das grafias, recorri às aulas de História do Teatro quando tratamos do teatro Anti-naturalista, responsável por uma ruptura no que se entendia sobre o mundo cênico, uma verdadeira exacerbação da plasticidade cênica. O teatro pós-dramático, que utiliza-se da cotidianidade também, porém, rompe com a visualidade do diegético.
Não encontrei referências a respeito da grafia no corpo. Almejo pesquisar com mais afinco e com colegas da área. Vejamos os exemplos cujos autores foram citados na aula de História:
Lecture on Nothing, Robert Wilson's
Idem
Einstein on the Beach, Robert Wilson's

Idem

“Old Fashioned Prostitutes”, Richard Foreman’s.
Idem
É genial, não só pelo fato de assegurar a presença do espectador, mas pelo fato de que as palavras comunicam conosco o tempo inteiro. Traduzimos muitos dos nossos pensamentos por meio da palavra. É através da palavra que damos sentido às coisas de fora, que abrigamos as externalidades.
"Eu creio no poder das palavras, na força das palavras,
creio que fazemos coisas com as palavras e, também,
que as palavras fazem coisas conosco. As palavras
determinam nosso pensamento porque não pensamos
com pensamentos, mas com palavras, não pensamos a
partir de uma suposta genialidade ou inteligência, mas
a partir de nossas palavras."
(BONDIÁ, J. L. Notas sobre a experiências e o saber de experiência, 2002)
Assim como Bondiá (2002), eu também creio na força das palavras. Nossa performance de corpo é uma verdadeira construção EM palavras.
Analisando essa performance fazendo analogias e comparações, identifiquei estas 3 visualidades: (1) Poema na pele; (2) Poema na voz e; (3) Poema no corpo. Talvez eu consiga diluir melhor essa tríade:
1. Poema na pele
Não temos o poema na íntegra escrito nas partes do nosso corpo, selecionamos palavras. Temos então uma gama de fragmentações que dizem respeito à completude interna desse material e mais, diz respeito à concretude desse poema dentro de nós. Não é apenas arte em si, não é uma questão estética apesar de tudo, mas é pertinente perguntarmo-nos: por que essas palavras?
Essas indagações me fazem lembrar do que Romeo Castellucci disse em uma entevista para o site português "Expresso". quando questionado sobre qual a sua ideia de teatro:
"Pode ser que no teatro se trate de nos vermos a olhar, de ver o próprio olhar, de nos vermos no ato de ver. Sermos testemunhas oculares da nossa presença numa sala de teatro."
(Disponível em <http://oglobo.globo.com/cultura/diretor-italiano-romeo-castellucci-explica-motivacoes-por-tras-de-peca-polemica-11816206> Consultado em junho/2016.)
Relacionando essa paráfrase ao que estamos tratando aqui, convido, então, nós atores, também sermos espectadores de nós mesmos. Que possamos nos permitir chegar à máxima que Castellucci almeja ao dizer essas palavras, que sejamos, enquanto espectadores, observados pelo teatro, deixemo-nos que ele nos assista para então compreendermos qual o sentido do nosso trabalho atoral que é estritamente pessoal.
2. Poema na voz
A voz, certamente, é a que causa maior estranhamento no poema. Além da voz impostada, estamos imprimindo dilatação vocal ao dizermos os nossos poemas. Como nas aulas, estamos experimentando cada sílaba. O poema se projeta numa voz carregada de falas internas, esse material interno gera a pulsão que dá visualidade ao que chamamos de voz extra-cotidiana. Nãos estamos num recital, portanto quebra-se o efeito de realidade de uma declamação tradicional de poemas, abre espaço para a contradição, o efeito de irrealidade estará na voz e na expressão dos atores. Não será possível nos ver, se quer eu consigo me ver ao falar o poema, eu vejo outro, outro saindo de mim. É orgânico, porque quando estamos no eu-circunstanciado nenhuma partícula de nosso corpo age fora daquele enquadramento.
3. Poema do corpo
Estamos cercados nessa apresentação. Todos os caminhos que trilhamos até agora TÊM de vazar no corpo. É necessário. De tantas e tantas vezes que treinamos esse corpo sob os poemas, a cada leitura do mesmo poema temos novos conteúdos para serem jogados no palco.
Cada leitura vai trazer uma nova imersão, um novo conflito, uma questão urgente, uma sensação, um estímulo, um pensamento. Por muitas razões e incontestáveis. Primeiro que, apesar de nosso exercício interno, tudo que construíamos precisa ser enquadrar ao novo homem que somos hoje. Nos renovamos a cada segundo e o material interno não é estático, é dinâmico. Essa novo eu não lerá o poema da mesma forma, logo, os novos eus, ouvintes, terão novos estímulos insurgentes daquele apresentação e o ciclo nunca vai parar.
Coloquei esse item por último porque o corpo é o limite, o corpo é o aspecto fundamental, porque ele é o ponto de equilíbrio entre os dois polos: O dentro e o fora; o interno e o externo; a voz (dentro) e a pele (fora). Tira-se a voz, mas temos o corpo e a pele. Tira-se a grafia e temos a voz e corpo. Mas se tiramos o corpo, o que há? Não temos ação, não temos presentificação, não temos existência.
Esse corpo é guardião de tudo que somos e produzimos. Estamos cercados. Fomos cercados. Estamos completamente enquadrados e sinergicamente o corpo, diante do público, mostra que ele existe, que ele tem voz, porque ele se comunica com com os espectadores e conosco atores; ele tem ouvido porque os poemas são novos conteúdos que impregnam imediatamente no enquadramento interno; ele tem visão, porque ele alcança a todos os presentes num diálogo entre olhares tão fixos quanto o movimento desse corpo.
Finalizo com um pequeno fragmento de nossa apresentação:
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Referências
BONDIÁ, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Disponível em <http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n19/n19a02.pdf> Acesso em: maio/2016.
CASTELLUCCI, Romeo. O teatro é o lugar do erro. Disponível em <http://expresso.sapo.pt/cultura/2016-05-06-Romeo-Castellucci.-O-teatro-e-o-lugar-do-erro> Consultado em julho/2016. Entrevista concedida a João Carneiro.
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