quinta-feira, 10 de março de 2016

ENSAIO TEATROLÓGICO: AÇÃO FÍSICA - O QUE É E O QUE NÃO É

Kavka - agarrado num traço de lápis - LUME teatro 


Este ensaio teatrológico  é incidência do estudo e discussão do texto SOBRE O MÉTODO DAS AÇÕES FÍSICAS, de Jerzy Grotowski, na aula de Corpo I, da última segunda-feira ( 07).Tem por objetivo discorrer sobre minhas apreensões do referido conteúdo, um construto feito também no plural, o que me permite dizer que os saberes aqui externados não são só meus. 


"A emoção é independente da vontade". Podemos não querer nos irritar com as pessoas, mas o fazemos. Queremos nos apaixonar, mas não conseguimos. Tantos outros exemplos sustentariam o fato de que a emoção é instintiva, involuntária, portanto, não influenciável. Ela implica uma reação moral, psíquica ou física provocada por estímulos externos: confusões, mortes, amores, surpresas. Assim, Stanislavski pensou o teatro por muitos anos, com a emoção.

     Apesar de a vontade não domar o âmbito emocional, ela tem seus subalternos, que são as PEQUENAS AÇÕES de ordem comportamental. Exemplifico à luz do texto: 

"[...]eu penso no canto dos olhos, a mão tem um certo ritmo, vejo minha mão com meus olhos, do lado dos meus olhos quando falo minha mão faz um certo ritmo, procuro concentrar-me e não olhar para o grande movimento de leques [...]".

     Os verbos em evidência apresentam a ação. A ação, em se tratando de um indivíduo psicologicamente saudável, é produto da razão, do pensamento, de um processo mental organizado. São essas pequenas ações que Grotowski chamou de físicas. 

      E por que discorrer sobre a emoção num ensaio sobre AÇÃO FÍSICA? Porque a ação física é objetivada, pensada, racionalizada. Apesar de soar um tom de mecanização nos adjetivos, esse constructo é o que gera a emoção cênica. Não é SUBJETIVO, não é de fora para dentro, é dentro para fora. Não são os estímulos externos que geram ação física, mas os processos mentais internos.  

     A ação física acontece na relação NÃO-FÍSICA com o outro ser. Ou seja, a personagem da cena pode ser a Julieta na instância física, mas na não-física, ela pode ser a mãe e qualquer outra pessoa ou ser que represente a emoção que necessita ser encenada pelo ator. Utilizamos, portanto, de recursos da linguagem cênica como a SUBSTITUIÇÃO, a FALA INTERNA, a PROJEÇÃO, a VISUALIZAÇÃO, dentre outros.

     A Ação física só é possível quando há ORGANICIDADE nos movimentos, quando os órgãos que possuem diferentes funções no corpo estão engajados na mesma ação, de forma combinada, harmoniosa; é quando determinada ideia a ser encenada percorre todo o corpo, e todo ele externa tal verdade; é quando se consegue a unidade de pensamento e ação. Recorremos aqui à psicofísica, a relação entre os estímulos físicos e suas respectivas sensações. 

     Quando não há organicidade na ação, há GESTO, que nada mais é que a ação periférica do corpo. Não vem do cerne, do interior, não é uma ação construída ou pensada, é apenas realizada. São movimentos ditos "clichês", os banalizados, sem originalidade, as imitações grotescas, o já feito, o frequente. São movimentos isolados das mãos, dos pés, e de qualquer outra parte do corpo. 

     Grotowski defende que as ações físicas estão enraizadas na COLUNA VERTEBRAL, no centro do corpo, para que habite todo ele. Podemos absorver esse pensamento em dois sentidos: (1) Fisicamente falando, entendemos que todos os movimentos necessitam que sua origem seja na coluna vertebral para que todo o corpo participe daquela ação. Discorrendo (2) psicologicamente sobre esse fato, consideramos que a coluna vertebral é sinônimo de útero, de âmago, isso implica dizer que a ação física precisa possuir uma verdade radicada no mais profundo do nosso ser. 

     O texto discorre ainda sobre o MOVIMENTO. Movimento e ação física não podem ser sinonimados. Movimento, como exemplificado no artigo, são ações características do "quem". Por exemplo: o padre tem movimentos característicos de um padre, isso não é ação física. As ATIVIDADES cotidianas, como varrer o chão, fumar um cachimbo não são ações físicas, no entanto, tais atividades podem vir a ser, desde que estejam inseridas numa narratividade. Ou seja, quando é feita uma pergunta na cena e o ator começa a preparar o cachimbo para fumar como uma forma de ganhar tempo, ele inseriu uma atividade numa narrativa, logo, tal atividade se tornou uma ação física. 

     Por último, quero discorrer brevemente sobre outros dois detalhes inerentes ao artigo: o SINTOMA e o SÍMBOLO, que são recursos da linguagem cênica e possuem sua significância no palco. 

     Podemos dizer que o sintoma é expressão da emoção, ambos são instintivos. Quando alguém enrubesce (fica corado, avermelhado) ou quando as pernas se movem num momento de impaciência ou ansiedade, são sintomas, insubordinados da vontade. Já o SÍMBOLO é a evidência de um sentimento ou ação. Bater o cachimbo na mesa, por exemplo, pode ser um símbolo alteração de humor. Mas é lícito salientar que ambos podem caminhar juntos. Numa ação pode haver os dois elementos. 

     Finalizo o presente ensaio parafraseando o ator-pesquisador LUME, Renato Ferracini:

"Podemos dizer que a ação física é a passagem, a transição entre a pré- expressividade e a expressividade. Ela corporifica os elementos pré- expressivos de trabalho e (…) é o cerne, a base e a menor célula nervosa de um ator que representa. É por meio dela que esse ator comunica sua vida e sua arte. Segundo Luís Otávio Burnier, a ação física é a poesia do ator".

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