segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

ÊXTASE



"...estado de quem se encontra como que transportado para fora de si e do mundo sensível, por efeito de exaltação mística ou de sentimentos muito intensos de alegria, prazer, admiração, temor reverente etc." 

Significado de "Êxtase" segundo o Dicionário Google.


Não teria outra explicação que não a transmudação. Corpos se misturando junto à música no embalo de uma partitura corporal constituída a partir da absorção de fragmentos de textos teatrais do  dramaturgo Tennessee Williams. 


     Considerando que na última aula de Corpo algumas partituras não puderam ser apresentadas, nos foi sugerido o seguinte: dar prosseguimento às apresentações da aula passada ou começar uma nova atividade corporal. A segunda opção foi democraticamente escolhida, afinal, o clímax estava para outro procedimento, não anulando o que passou, mas é que cada momento possui a sua sutileza. 


     Nos foi apresentado dois textos, um fragmento da vida de um moço e outro de uma moça. Cada aluno escolheria qual fragmento queria desenvolver. Escolhi o texto da personagem feminina porque ela representa bem a ânima, o estereótipo de uma mulher ousada, corajosa, audaciosa, ambiciosa, em contrapartida, notadamente, a inferior, a submissa, a sonhadora. 


     Primeiramente uma leitura silente e interior, mais tarde uma leve discussão para melhor esclarecimento dos textos. Depois do diálogo (com o texto), o aquecimento: pintar o círculo. É. É isso! Sinceramente, a dimensão do meu círculo era sufocante, me cobria todo, mas o comando era mexer algumas partes do corpo como se estivesse colorindo o tal círculo. Joelhos entrefechados, rotacionando para dentro os pés, e o mesmo movimento para os joelhos, o quadril, a região torácica, os ombros, os cotovelos, as mãos... depois, dar palmadinhas em todo o corpo e esfregar tudo e soltar no meio do círculo externando um grito. 


  Ainda prosseguindo com a dilatação cênica... fazer os movimentos de praxe: empurrar o ar, furá-lo, se amarrar com uma corda e segurar e largar partes do próprio corpo. Por fim, misturar os 4 movimentos. Em uma palma, fazê-los rapidamente, em duas, diminuir o ritmo. Falando em ritmo, é importante salientar que o repertório musical da aula foi um grande propulsor de emoções, faço memória de "Vapor Barato", num dueto, suponho, de Gal Gosta e Zeca Baleiro. 


      O que fazer com o texto? Inicialmente complexo. Mas o dever era escolhermos 6 frases e com os movimentos apreendidos no momento da dilatação, imprimirmos uma ação física para cada uma. Minha partitura foi baseada nestas frases:


"Quando eu cantava, Alva me mandava calar a boca."

"Tudo de Alva agora é meu."
"...todos os namorados dela."
"Agora sou popular..."
"Como eu danço bem."
"...com medo de que a cabeleira descole..."

     Desta vez fui o primeiro a apresentar. Mas quero externar sobre a construção da partitura:


AQUELA MULHER 

Allan Maykson

Senti a dor daquela mulher presunçosa 

sua voz calada impetuosamente por Alva.
Senti o medo nos olhos 
o medo no terrível silente. 
Senti o desejo de vida melhor 
senti seu suor no calor dos lençóis.
Tudo depois ela herdou num repente. 
A todos os namorados de Alva tragou 
sem pensar duas vezes. 
E tantas vezes sem pensar 
se expôs, mas implodiu tantas outras 
que toda ambição a tornou popular. 
Eu não sei dançar 
mas ela sabe. 
Eu não frequento bar
mas ela sim. 
E dentro daquela alma terrível 
a criança latente 
o ser carente 
dona de uma boneca sem mente 
sobre a qual atribui pudores. 
Os seus - cegamente. 

01 de março de 2016

     
     Considero se duma importância ressaltar que a fala interna nos foi dada pronta e ela ressoava no momento da apresentação da partitura corporal.

    O trabalho com o corpo me causa êxtase. A expressão da cenestesia construída à partir da absorção de algo pronto e concreto, a resinificação, o corpo cênico, extra-cotidiano, abstrato, me deixa sem fôlego. Me remete à Biodanza. A integração entre a música, a dança, o movimento e o encontro humano afetivo resultam num sentir profundo, vital, erótico e transcendente. 




sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

AI. A REGRA.

A regra geral era improvisar... 

Grupos de no máximo 5 pessoas com a missão de representar um jogo teatral. O jogo poderia ter uma ou mais regras, elas poderiam ser ocultas, mais tênues ou estampadas na "cara do espectador". Também era preciso de um ponto de conflito, quer seja para uma quebra entre uma situação e outra, quer seja para provocar uma reação em que a regra se aplicasse.

     Apesar de todos esses detalhes, estávamos fazendo jogos de improvisação, ou seja, a regra geral é improvisar, interpretar algo que não foi previamente pensado, escrito, elaborado. O grande barato dos jogos teatrais é exatamente a surpresa, o inesperado, que quase sempre gera o cômico. Mas esse não é objetivo principal, é sim construir um repertório para o autor, de situações, de ações, de reações, e de muitos outros recursos, sobre os quais pretendo discorrer em breve.


     Ah! Me esqueci de escrever uma outra regra no primeiro parágrafo, a tríade norteadora dessa poética: O QUÊ, QUEM e ONDE. Vamos conhecer o que eu e meus outros 4 colegas preparamos.


     O QUÊ - disputa pela garota do baile.

     QUEM - quatro amigos e uma garota.
     ONDE - num famoso baile de favela.
     A REGRA - devemos começar nossas falas com a sílaba "AI".
     O CONFLITO - tiroteio.

   É lícito salientar que em uma improvisação não se ensaia o acontecimento, senão caracteriza dramaturgia ou teatro. Podemos estudar a tríade para apreendermos nossa expressão para aquele dado contexto, mas as situação não devem ser previamente criadas, senão torna-se uma cena estruturada fugindo, portanto, do objetivo dos jogos.


    Foi engraçado... Não a representação, mas a construção. Estávamos desesperados e ansiosos para saber o que iríamos propor no espaço cênico. Mudamos diversas vezes a tríade, quase que confundimos a nossa própria personalidade de tantos personagens que criamos para nós. Após chegarmos a uma conclusão percebemos que nossos colegas estavam "ensaiando" algumas coisas e emergiu aquela preocupação: MÊ-U DÊ-US, o que faremos? E agora? . As representações começaram e aos sussurros tentávamos organizar o que faríamos, mas não deu certo, a professora pediu silêncio.


     Hora de ir para o "palco". Tendo as regras do jogo claras, começamos. O D. fez o papel da garota do baile. Até tínhamos uma menina no grupo, uma única menina, mas ela se recusou a fazer o papel feminino. Interessante esse choque de visualidade, essa troca de gênero. Marca muito a ousadia que é o teatro. Cada um entrava com sua frase sempre começada em "Ai", a casa um que ia, as cantadas e os toques ficavam mais calientes. Por último foi a nossa querida mulher do grupo e a mais ousada. Deu um "beijo" na "garota" e levou o prêmio da noite.


    Como um lindo final feliz, tiroteio na festa e se quer a alma dos "machões" do baile! 


A ANATOMIA DA VOZ

Escuro. Mão na cabeça. Gritos incomuns. A claustrofobia tomou conta de mim...


Considerando que na última terça-feira, 16, eu havia perdido a aula de voz; e também considerando que os vídeos dessa aula postados pelos colegas no grupo do whatsapp me deixaram desejoso em vivenciar essa experiência absurda, me permiti surpreender a mim mesmo. Nada de perguntar como foi ou como seria, apesar de praticamente todos já conhecerem o aquecimento. Atenção! Já ia começar. 

     Começamos o aquecimento. Todos deitados no chão à vontade. Cada um no seu espaço. Respiração profunda. Inspirar contraindo a musculatura do diafragma e expirar expandindo essa região. Nada de mexer os ombros. Apenas sentir a música e respirar. Logo mais, deveríamos fazer alguns burbúrios, sons que não consigo distinguir, eles seguiam um mesmo ritmo, uma mesma vogal, um mesmo tom. Inicialmente era tão desarmonioso, mas isso foi se desconstruindo. Me recordo bem de um momento em que analisei e concluí: como pode estarmos externando sons em tamanha harmonia? Poderíamos abrir um longo parêntese e discorrer sobre a questão energética e sobre a questão da inconsciência para debater sobre esse fenômeno - lindo, por sinal.

     Em poucos instantes, sussurros ecoavam pela sala. Era a professora dando algum comando. Ela nunca chegava até mim e aquilo me sufocava de ansiedade. Pois bem, "encontre um corpo para sua respiração". Tenho quase certeza de que foi essa frase. Claro que não entendi bem do que se tratava aquela expressão, mas fui obediente e deixei meu corpo fluir junto a música que havia se formado naturalmente nas vozes daquele grupo de calouros. Corajosos calouros. Porque propor-se a isso é uma questão auto-permissão e auto-ceder é uma tarefa árdua, porque nosso ego não nos deixa em paz quando o assunto é tirá-lo da zona de conforto.


     Todos se levantam. É hora de montarmos o hospício, expandir a nossa potência vocal, elevá-la ao máximo de nós e o máximo de nós se trata do menor de nós, ou o mais oculto, o mais desconexo. Sob efeito da substituição a ordem era gritar, expressar uma loucura, representar uma situação trágica, evidenciar esse corpo extra-cotidiano, esse som cuja anatomia era desconcertante. O exagero. Mas no sinal da lanterna, o brando, o tranquilizado, o tom da estética simbolista e assim, aos sinais da lanterna, oscilávamos. Um grande oceano de loucura. Cada voz uma história, uma substituição de algo verídico. Ali e em tantas outras atividades é isso que o ator faz, ele se imprime.


     Em duplas, deveríamos "direcionar" a voz do outro. Como se nossos dedos tivessem agora um superpoder. Conforme os dedos se movimentavam, deveríamos dar um som para aquele movimento. No meu caso, quanto mais alto meu colega posicionava o dedo mais alto eu deveria gritar, da mesma forma o contrário. Fizemos movimentos circulares, retilíneos, instáveis e estáveis... a voz daria a anatomia para aqueles movimentos.


     De todos os sons que inserimos em nosso repertório vocal, deveríamos escolher 4 deles. Hora de construir um pequeno esboço cênico, na verdade, prioritariamente, uma partitura vocal. A fala interna seria um recurso essencial para a transição de um som para o outro. Mas confesso que a substituição foi o que deu vivacidade e inclusive emoção ao que fiz, eu me envolvi MESMO com a situação que eu criei, porque utilizei do trágico momento em que recebi a pior notícia que tive em minha vida: a morte do meu avô. Aproveitei o escuro para chorar. Não por vergonha disso, mas porque não queria explicar às pessoas a situação e me martirizar ainda mais.


    Esta foi a minha partitura:

    - Allan!
    - Hum!
    - O seu avô...
    - Hã?
    - Ele morreu!
    - Ah!!!

     Apresentamos nossas partituras em grupos de 5 pessoas. Todos representando simultaneamente. Ficou muito interessante e seria uma ótima sugestão para apresentação de cenas curtas, por exemplo.


     Há alguns anos busco resignificar essa situação trágica da minha vida e penso que o teatro é muito poderoso para resolução de muitas questões internas, porque precisamos acessar o tempo todo os conteúdos de nossa história e dar um outro sentido ou aplicar alguns recursos expressivos de outra maneira. A aula de voz foi libertadora!
     

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

O EXPURGO



EXPURGO
Allan Maykson

Joguei para fora o que não era meu 
o que a vida me deu como surpresa. 
Eu fui violento, eu me protegi 
suei, forcei, no chão eu caí
mas não me sujei. 
Das minhas mãos 
saíam poderes:
os pudores pútridos 
em grande proporção. 
Suei de verdade 
me reconstruí
porque ser ator 
é fazer e sentir. 

26 de fevereiro de 2016

Saúdo essa descrição com esse poema que veio à tona quando pensava no que queria escrever sobre a aula de Corpo I do dia 22 de fevereiro. Às vezes a poesia é bastante intensa e remonta com beleza o mais perturbador. Não a beleza estética, pois dessa careço, mas a beleza da poética, do ensaio, do pensamento. 

     Após perder a aula de Corpo da semana passada estava um tanto perdido na parte do aquecimento da aula. Mas fizemos alguns exercícios já descritos antes aqui: furar o ar, empurrá-lo, tocar a sí e largar e o mesmo fazer no corpo do outro. 

     Previamente nos foi solicitados que levássemos 4 imagens de formas corporais de nossa escolha. Deveríamos, com esse material, produzir uma partitura corporal. Ou seja, criar uma linearidade com 4 imagens. àquelas que tiravam toda possibilidade de execução, foi pedido que as adaptasse. Pegaríamos um produto bruto externo e o internalizaríamos. Nossa fundação é dar vasão, razão e emoção ao que está sem vida, uma figura qualquer. 

     Selecionei 4 imagens de uma página ou artista que admiro há alguns anos: Mel Kadel. Até hoje não consegui descobri se trata-se de uma pessoa ou um grupo. Suas obras têm características bem marcantes e que delineiam a sua identidade, mas o que me chama a atenção é a inexpressividade dos personagens e a ação dos mesmos quase sempre de eliminação de uma energia negativa. Assim me é traduzido. 

     Com as imagens nas mãos a orientação é que dialoguemos com elas, nos relacionemos e assim, criar a partitura corporal que seja coerente ou condizente com o que desejamos. Para cada movimento de troca de uma imagem para outra, a Fala Interna era a chave mestra para a construção do clímax interior, a verdade externada de dentro para fora. 

      Após ensaiar algumas vezes a partitura, hora de apresentarmos a construção para aos demais. Cada um que passava pelo "palco" era desafiado pela professora com orientações como diminuir mais a intensidade dos movimentos, ou fazer a mesma partitura com pessoas no palco e assim, notar as mudanças, que no fim, ficavam mais verídicas, digamos assim. 

A minha partitura: 









         Na apresentação da mesma, fui orientado a fazer essa cena de expurgo como se eu estivesse numa briga em casa sentado na poltrona da sala. Um objeto teria sido lançado sobre mim e eu me protegeria com os pés. Certamente um contexto que exigiu outras falas internas. 

PALAVRA E METADE

Naqueles olhos todos era evidente: o senso de maioridade havia passado, e nem se quer viveram a época - atual - da adultilização. Todos voltamos ao berço, ao princípio de tudo, da boa criação, aquela que não se dá nas jaulas de ouro entupidas de brinquedos, mas aquela em que o brinquedo que não existe é inventado simples, criativo e humanamente saudável. 


Não obstante de quando criança, os jogos aqui também exercem várias funções, desde cômica até a simuladora de regras, essas que, quando apreendidas por meio da brincadeira, são aplicáveis no nosso quotidiano. Vivemos uma época na qual a nova geração compreende menos dessa forma de organização social, o que traz alguns infortúnios ao bem-estar da vida. Mas esse não é o percurso de hoje. Vamos mudar o contexto. 

     Os jogos, dentro da perspectiva cênica, são uma estrutura do brincar, de criação livre, para se utilizar no teatro em forma de jogos lúdicos, cenas curtas, esboços cênicos ou improvisações. O objetivo é preparar e instruir atores tanto na ampliação do repertório cênico, da vivência teatral, como também preparar profissionais que utilizam esses instrumentos em ambientes pedagógicos, que vão muito além de instituições de ensino. 

     Viola Spolin é a principal referência no que tange a esse recurso imprescindível na preparação de atores e não atores. Ela quem didatizou e estruturou esse processo a partir de sua experiência. Como princípio básico básico tomamos a tríade O QUÊ, QUEM e ONDE, tornando a experiência cênica mais eficaz a ponto de o corpo cênico ser possível, quebrando paradigmas da "incorporação" do personagem substituindo-a pela construção do mesmo aliado a várias outras poéticas como a Substituição, a Fala Interna e a Expansão. 

     Dada a introdução, vamos entender o que foi a aula de jogos do dia 17 de fevereiro. Afinal, o que foi? Um jogo de CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS. Considerando que minha função de vida favorita é essa, fiquei animado. Mas, dissemos que os jogos, para serem jogos, precisam de regras. Pois bem, formou-se a roda-gigante. A ideia era começar a contar uma história e na metade de uma palavra, preferencialmente numa sílaba, o colega ao lado deveria prosseguir com a sua história seguindo o mesmo raciocínio ou não. Exemplo: 

- "Era uma vez um elefante amarelo que camin..."
- "...ando e cantando seguindo a can..."
- "...cer! Era Câncer o motivo da morto do ele..."

      Fundamental era abusar mesmo da criatividade, afinal, é assim que construímos nosso repertório cênico.

     Essa foi uma regra. A outra: não pode repetir a palavra inteira que o colega disse. É preciso continuar da metade que parou para dar a ideia de uma pessoa só contando a história, porém, isso requer muita agilidade e nada de reflexão. Essencial desenvolver momentaneamente a "síndrome do pensamento acelerado". Seria perfeito! 

     Claro que existem "grandes" amigos que almejam vê-lo gaguejar ou fazer feio, destaco meu caro Lucas Suarez, um moço simpático por quem desenvolvi sincera amizade. Experiência própria. Claro que uma brincadeira muito saudável. Me lembro que a última metade que me veio foi "lepo". Sim! Fiquei desesperado e respondi: "Lê Poet... um filme de um grande dramaturgo francês". Não respeitei a regra. Fiquei nervoso. Mas nas próximas vezes percebi que aquele erro foi crucial para a minha maior atenção e meu reflexo. 

     A história ficou um tanto embaraçosa, no entanto, interessante quando resgatávamos alguns personagens que já estavam esquecidos e resignificávamos até mesmo a situação (conturbada quase sempre) na qual estavam inseridos. 

      Assim que cheguei em casa, feliz da vida, externei em poema essa aula de Jogos e finalizo com ele. 

PALAVRA E METADE
Allan Maykson

Um jogo que segue
palavra e metade
atenção que se preza
que se apressa 
e nos prende 
o pensar num repente 
numa história contada
sem nexo, sem linha 
deslineada. 
É o jogo de palco
é o palco em jogo
como no jogo da vida
há graça no mundo
há riso constante 
há riso contido
há riso insosso
há história de amigo
de bohemia e tragédia 
elefantes coloridos 
há noivado acabado
namoro recomeçado 
há pessoas estranhas 
comendo churrasco. 
A história se segue 
palavra pela metade
pois todo o resto 
outro dá continuidade. 
Eu falo uma sílaba 
para facilitar
mas sem me repetir 
tem de continuar. 
Eu quem dou fantasia 
eu quebro o óbvio 
posso ser previsível 
até incoerente 
mas as regras do jogo
devem ser seguidas. 
Em roda bem grande
e cara na cara 
o inconstante 
é fascínio na aula. 
O que vem à tona 
é para ser dito
o mais importante 
é começar na metade 
com ou sem sentido
sem repetir o pronunciado. 
Esse jogo só tem fim 
quando a história 
tiver terminado. 

17 de fevereiro de 2016

(EXPLOR) AÇÃO DA VOZ

e eu que pensei que a aula de Voz nos ensinaria técnicas de canto... Ei! Estou no curso de Artes Cênicas. Aos entendidos: "Acorda, garota!"

Sim! Nesta aula também faltei. Mas morri de sede dela. É para isso que serve a união entre o amor ao que estuda e um grupo de whatsapp da turma da faculdade. 

     Não é tão convincente escrever sobre uma aula que não se assistiu. Mas também não quero convencer aos meus leitores ou a mim mesmo disso, até porque existe uma verdade: aquela que brotou em mim a partir do material produzido na aula. 

     Apenas sons! Gritar, gemer, imitar... Construir, mais tarde, uma partitura de voz. Dar sentido, contexto, locação, identidade àqueles absurdos vocais. Ouvia-se uma família de macacos, um monstro infernal - suponho - que se rastejava, um estupro cruel... pouco se via no estúdio com as luzes apagadas. E por esse motivo, pouco consigo expressar, no entanto, ouvindo os comentários (do dito grupo) tenho certeza de que o que foi vivido está no âmbito do intenso, do animalesco, do absurdo, e como li, do restaurador, do vivificante, do alívio, do terapêutico. 

   

FORÇA ESTRANHA

"Eu vi muitos cabelos brancos na fronte do artista
O tempo não para e no entanto ele nunca envelhece
Aquele que conhece o jogo, do fogo das coisas que são
É o sol, é a estrada, é o tempo, é o pé e é o chão."

Esse poderoso fragmento da música "Força Estranha" de Caetano Veloso, é a melhor síntese que externa tamanho êxtase que senti no momento em que assistia ao vídeo sobre a aula de corpo da segunda semana de fevereiro, gravado e editado pela minha colega de sala e talentosíssima artista, Juliana Reali. Aula esta em que não pude - lamentavelmente - estar.

     Tanta abstração me empolga. Tamanha dilatação corporal me emudece para que com olhos marejados eu me permita fruir de toda aquela diegese traduzida por mim e para mim, trazendo à tona conteúdos intrínsecos, emoções despidas que exalam o doce perfume da certeza, a incontestável certeza de que a linguagem cênica é um percurso sem volta para acessar o nosso inconsciente.

   É tão revelador... o corpo é tão comunicativo, que nas partituras mais tênues presentifica-se o nosso eu, por vezes muitas na instrumentalidade cênica, na técnica, mas na genuinidade que ninguém nos tira: a nossa alma. Até porque o corpo cênico não é dicotomizado. Somos um ao representar um outro. E é sobre essa unicidade humana que quero expor tudo que vi da aula que faltei.
   
     PARTITURAS DE DENTRO
     Allan Maykson

     Eu vi uma leveza marcante
     a timidez arredia
     o medo que cerca
     a fuga, a queda.

     Eu vi a morte matando
     também vi a morte morrida
     a fraqueza e a raiva
     a alma ferida.

     Eu vi o silêncio agudo
     a desistência.
     Eu vi a união de mil mundos
     a indecência.

      Eu vi a cesura na mão
      uma pausa e um tapa.
      Eu vi um olhar de agressão
      vi mil almas libertas.

      Eu a vi declaração
      o abraço e o riso.
      Eu vi muito mais compaixão
      do que vi egoísmo.

      Eu vi não uma possessão
      mas o puro sentimento.
      Eu vi muito mais emoção
      que razão. Mais que o cênico.

      Eu vi um mundo de amor próprio
      na íntima relação
      entre o eu
      e seu empoderamento.

      25 de fevereiro de 2016


     

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

TROTE SOLIDÁRIO



Há quem diga que "a união faz a força", mas garanto que nas Artes Cênicas fazemos muito mais. Fazemos barulho - somente onde pode -, nos pintamos e deixamo-nos pintar, nos fantasiamos com máscaras, perucas, e outros acessórios, mas vestimos uma só causa: o incentivo à arte. Nesse caso, em prol dos nossos queridos veteranos, que participarão do Festival Nacional de Teatro de Curitiba, levando peças teatrais de excelentíssima qualidade.

     "40 atores, um só desejo". E o desejo é nosso, é de todo mundo. É de dezenas de pessoas que contribuíram, que se divertiram com a gente no semáforo. Que riram, que buzinaram, que apenas olharam com alegria mesmo sem poder ajudar.

     Uma performance surpresa. Uma intervenção nesse cotidiano linear. Uma provocação ao estresse. Um despertar para o riso esquecido. Um teatro que interage com o meio, com o outro, com a vida.

     Se tudo der errado, já aprendi que no semáforo existem pessoas generosas.

     Gratidão. A melhor síntese.


DIÁLOGOS CORPORAIS...

Um estúdio de TV nada a ver com  o que eu pensava sobre estúdios de TV's. Mas a surpresa não ficou por aí. Além das caixas com faces multicoloridas e berço de outras e outras caixas,  que tal vivenciar primeiramente a prática corporal no contexto cênico para depois discorrer sobre as teorias concernentes a essa experiência? Façamos, portanto, assim, sem explicação. De supetão. E o curso começava...

     Um gran círculo, de fronte para rostos recentes que com o tempo se tornariam inesquecíveis e, simplesmente, fragmentos do nosso novo eu. O objetivo da aula foi vivenciar uma espécie de dilatação do corpo, da criatividade, dar forma ao pensamento. 

     Iniciamos com alguns exercícios de alongamento. Incomuns até. Diferenciados. Pés equiparados, joelhos entre-dobrados e prontos para receber o que havia de vir. Mexer esfericamente os ombros, os dedos, as pernas, o quadril, o calcanhar, o tórax... esfregar as mãos no corpo como num banho de sábado, sem deixar que nenhuma parte ficasse sem gozar daquele capricho. Mais alguns minutos, depois do "banho" é hora de lançar fora toda energia pesada, a sujeira, tudo o que não nos pertencia. Foi vivificante. 

    Sabe aquele desenho "Avatar e os quatro elementos"?! Para que os personagens conseguissem controlar seus poderes de "moderar" a água, o ar, a terra e o fogo, era preciso fazer um movimento ritualístico correspondente ao respectivo elemento. Foi isso que me veio à tona quando tivemos de "interagir com o ar". Interagir com o ar de forma que ele nos empurrasse. Era preciso traduzir aquele movimento agregando alguma situação cotidiana para que pudéssemos expandir a criatividade. Aplicar a força e intensidade era estritamente necessário.

    Após o duelo com o ar, nossos dedos deveriam furar o céu, o ar, ou um balão, ou nem precisariam furar, mas apenas dançar ao léu. Mais tarde, tivemos de a unir delicadeza à força dos dois movimentos intercalando-os entre si. Mas nada tão inesperado como "agredir a si mesmo", pegar partes do seu corpo e arremessar como se fossem desprendidas, como se elas não nos pertencessem, como se sentíssemos repúdio por essas. 

     Agora, fazer o mesmo no corpo do outro... o outro desconhecido, que se tornaria, com o tempo, mais íntimo e parte de nós... Pois o acasalamento de almas foi bem ali. Ali se construiu a unidade, a intimidade, o corpo cênico perfeito, que se interagia inspirado pela energia circulante. Não foi magia. Foi energia. Uma energia que alimentava o suor, o cansaço, a mobilidade, a veracidade. Uma energia precisa quando a ordem foi integrar os quatro movimentos aleatoriamente. 

    Por fim, em duplas e um trio (o meu), o objetivo foi criar um contexto linear para os movimentos. O que aprendemos ser partitura corporal. Não mais silentes, os movimentos iniciais, tímidos e quase que auto-censurados, ganharam o empoderamento, podiam ter voz e uma história construída em apenas um diálogo. A minha história: duas amigas na boate de uma favela, eu, o grande criminoso e machista que as odiava. No meio de todos nos olhamos com ódio. Me posicionei para agredí-las, como feras, se defenderam, como frágeis, apanharam. 

    Cada dupla construiu uma linda história, de amor, de dor, de perda, de morte, de violência, de cumplicidade, de delicadeza, de amizade. Cada dupla, com a sua verdade, fez um ótimo trabalho. 

     Mente e corpo sãos. Viva as Artes Cênicas!
   

O TEATRO QUE NÃO PEDE LICENÇA

No princípio era loucura, a loucura se fez cerne, e o cerne estava comigo. O cerne era eu.
Poeta e compositor em tempo integral e adulto lotado de trabalho nas horas vagas. Me chamo Allan Maykson. Sim! Maykson é o segundo nome.

     O teatro simplesmente não pediu licença, não quis saber sobre meu interesse, descartou qualquer possibilidade que eu tivesse para opinar. Ele simplesmente adentrou às portas de uma alma frágil e caçadora de si. De modo invasivo me imergiu para sempre. Meu espírito é úmido de teatralidade, imerso no mundo cênico, sedento pela unicidade do ser.

     Aos 19 anos descobri essa aptidão, vocação, inspiração para o teatro, mas não imaginava até aonde isso chegaria. Passei por algumas escolas fazendo contação de histórias no personagem "Tio Allan", e a cada apresentação havia pelo menos um olhar de uma criança que me incitava a nunca mais parar esse trabalho. Fui descobrindo alguns caminhos, tive muitas luzes aqui na terra como no céu, e resolvi trilhá-los em nome do amor.

     O amor nos faz abrir mão de muitas coisas que não são desimportantes, mas que se deixam abrir espaço às prioridades. Nascido e criado na cidade de Linhares, no Espírito Santo, com os mimos dos avós, de uma mãe preciosa e um pai de relação tênue, além das singularidades de uma irmã mais nova e da paixão pela irmã mais velha, jamais me imaginei sair de casa tão cedo. Esse é o meu "tão cedo". Deixei por lá grandes amigos, familiares de todos os gostos, centenas de alunos maravilhosos, dezenas de colegas de trabalho, um emprego excelente e oportunidades apetitosas para um jovem em início de carreira. Tudo isso em nome de um amor que não exclui o amor pelas demais coisas.

     Me propus a ganhar menos, a morar com amigos, com estranhos ou até mesmo sozinho. Me propus a pagar minhas contas - todas -, um aluguel. Também me propus a (tentar) lavar roupas, louças, fazer comida, terminar uma pós-graduação, trabalhar e estudar outra graduação, a de Artes Cênicas, claro!

     Mas veja como é o amor... simplesmente não há dor que fere. Há dor que ensina. Há saudade que dói, mas não machuca. Há horas de sono perdidas, choros, desesperos, mas há um amor que acalma, que apazígua, que incentiva, que anima, que dá força e coragem. Um amor que promove, que move, que renova. O amor pelo que faz. O amor que nos faz.

     Neste momento, é só o que posso dizer de mim.

     Caso venha alguém aqui, que sinta-se muito à vontade. O teatro não é nosso.