sexta-feira, 24 de setembro de 2021

O SENTIDO DO FIO: O ENCONTRO (PÓS-)PANDÊMICO DA SOCA BRASIL

Há cinco minutos são meia noite. O suor do campo de visão final ainda escorre. Um encontro de resistência que se começa a questionar o sentido dos próprios encontros, esses que partem de escolhas, escolhas que são tomadas a partir de experiências que, traumáticas ou não, tecem a história de cada um, que num emaranhado de vivências se integram, criam um lar, o lar dos sentidos e de consciências nômades e, muitas vezes, órfãs.


SOCA Brasil, a Associação Sociedade Cultura e Arte resistiu aos muros da universidade, superou a ideia de um curso e colheu singularidades. Me vejo contribuindo pouco hoje, devido a uma série de questões outras que me levaram também a fazer escolhas, mas nunca concordei em deixar esse grupo, porque sinto um fio. Fio este que, até então era nebuloso, mas hoje, em nossa reunião de conselho, após quase dois anos de pandemia no país, o fio teceu o seu real sentido.


Existir e criar, criar e existir, existir porque se cria, cria-se porque existe-se. A SOCA é o fio de subsistência que conecta artistas-pensadores de uma colônia (ES) em plena transição e construção cultural contemporânea, onde ainda impera-se as influências mais puras (ou pútrefas) do patriarcado, da burguesia, do clero, do extremismo, do fundamentalismo religioso e tantas outras expressões de opressão.


O “campo de visão” final dizia tudo que somos: corpos simbióticos em afecção, portanto, formas em questão, poéticas no divã, a luz, a palidez, o som; as pausas, as abreviaturas, os passos, o pouco volume, o espaço cru; Um coro de corpo em processo catártico: tivera mais tempo, mais eco, menos regras (do prédio). Um encontro de gratidão.


Eis que, da moto, durante quatro minutos até chegar ao meu portão, penso: eis o fio da questão! Ainda que não tão participante, presente; ainda que não tão envolvido, presença; ainda que (ainda) não construindo, presságio; ainda que não tão atuante, processo; ainda que não como queria, propósito; ainda que nada disso, persistência; e mesmo que menos que isso, permanência. 


O fio da questão é que, mesmo quando não em produção efetiva da minha arte, me lembro que não é o que produzo objetivamente que me faz um artista, mas o que construo subjetivamente também. Não fosse a SOCA, não fosse a Poéticas, me lembraria que um dia fui um artista ou pensaria que nunca deixei de sê-lo?






 

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

PROCURA-SE O MEU DIAGNÓSTICO

Allan Maykson


Há algum tempo, pouco depois de eu vir morar sozinho, as falas repetidas do meu pai ecoam na minha cabeça. “Isso é falta de atenção”. “Tem que ter atenção”. “É o que sempre te falo: atenção”. “Ele não presta atenção”. Foram tantas orações derivadas do substantivo “atenção” na maior parte acompanhada de “falta de”, que ultimamente percebo o quanto isso faz todo sentido. 

Talvez eu sempre tenha sido desatento, por causa natural; talvez eu me tornei desatento – o que acho improvável; talvez eu tenha acreditado piamente que eu sou desatento e potencializei isso. A verdade é que a desatenção tem crescido gradativamente e eu tenho encontrado meus meios de me sinalizar entre os meus multifocos. 

Percebo que há uma desarmonia entre o discurso que está em alta e aquilo que se passa dentro de mim. Parece que não é bom sermos muitas coisas, termos muitas habilidades em diferentes áreas e que a felicidade não é alcançada se não houver um foco, se não fizer uma coisa por vez, sem devanear, divagar, desatinar, delirar, desvairar, discorrer, magicar, fantasiar, vaguear... Se precisa ser assim, sinto que meu lado poeta precisa morrer.

A questão é que papai tem razão. Neste momento, eu olhei para a janela e observei as folhas da jaqueira balançando, iluminadas sob a luz do poste e senti uma brisa atravessar janela à dentro e por alguns segundos me desviei do que estava escrevendo aqui. Percebe? 

Seria assim se eu ouvisse um barulho do apartamento em cima do meu, do vizinho socando alho, batendo roupas, deixando coisas caírem ou lavando louças desajeitadamente – assim eu lavo. Percebe que já me visualizei lavando louças e viram uma dezena de exemplos de quando deixei coisas caírem? É uma mente desatenta. 

Por vezes escrevo coisas como se estivesse escrevendo um texto de teatro. Percebe? Já estou no teatro, me imaginando num monólogo sobre a minha desatenção... Eu não tive uma criação dessas de ir muito ao médico, tampouco ao psicólogo, não era prioridade. Nunca foi. E parece que essa ideia está entranhada em mim. Até hoje eu nunca fui ao psicólogo, mas eu sei que tenho alguma coisa aqui dentro que destoa, que não é o fato de eu ser artista, ou talvez o fato de eu ser artista justifica eu ser assim, meio que, fora de mim. 

Eu não sei discorrer bem sobre isso, nem mesmo parei para estudar essas minhas características, mas me sinto estranho... Acho que não desenvolvi se quer a capacidade de amar. 

Tudo que me atrai
me ofusca de uma forma robusta 
que parece querer me ganhar... 
E me ganha! 
Não penso nas coisas passadas 
Nas histórias construídas 
Nas experiências vividas
Tudo se torna um passado enterrado 
E de repente, eu quero isso agora
Viver o que isso tem para me dar agora 
Um brinquedo, uma roupa, 
Um perfume, um filme, 
Um alma, um namorado... 

Eu faço poemas para conquistar e saborear as coisas que são socialmente condenáveis, que me deixam como o errado. É um desejo tão compulsivo, que atinge a minha moral e envolve os corações dos outros. Chega um momento em que eu enjoo, parece que toda aquela curiosidade emergente é descortinada num instante e toda graça acaba e aí eu me lembro do que é realmente fundamental pra mim: o trabalho, os amigos, o amor... 

Me sinto como uma música descompassada, desafinada, desarranjada, numa dança desenquadrada, num corpo desalinhado... Me tornei adulto e me formei em Pedagogia, que lida basicamente com a construção do sujeito, me especializei em Arteterapia, que o desconstrói para reconstruí-lo, e por fim, terminei as Artes Cênicas, que atua no campo da total desconstrução, desarranjo, hibridização, fragmentação... E foi nela que melhor me encontrei. 

Percebe? Não era para eu falar das Artes Cênicas, mas agora preciso (“que mente desatenta” – diria meu pai. Percebe outra vez?)... Por um minuto me esqueci o que eu iria dizer. Percebe? Se eu não faço agora, já, neste instante, é como uma avalanche que chega, destrói e faz tudo desaparecer. Percebe? No mesmo parágrafo. Percebe? 

Eu ia dizer que nas Artes Cênicas meus maiores dons foram muito bem-vindos: Poesia, música e loucura. Criei coragem, desabrochei, me encarei, deixei o cabelo crescer e depois raspei; emagreci e engordei; chorei e quis desistir, mas resisti; com a minha desatenção eu briguei: estudei mais do que era necessário, mas não o quanto eu realmente deveria – sim! Eu me cobro bastante -  Percebe? 

Me pego encontrando jeitos de otimizar o tempo e o tempo que perco tentando, já foi toda a minha perda de tempo. Quando eu vou arrumar a casa é mais ou menos assim: primeira coisa que olho é a pia. Pia cheia de louças. Antes de lavar as louças é melhor colocar a roupa para bater. Mas antes de colocar a roupa para bater preciso tirar as roupas do varal (isso quando não tem roupa esquecida na máquina); antes de colocar a roupa para bater e começar a lavar a louça, seria interessante cozinhar o feijão, porque demora. Então vamos catar feijão, pegar a panela, encher de água, colocar no fogo, tapar, depois tirar a roupa do varal, jogar na cama, depois colocar as roupas para bater, mas antes dividir em grupos de pretas, brancas e coloridas. Esqueci o que vinha depois... Percebe? Agora que a roupa está batendo e a panela está fervendo, vou usar meu tempo para lavar louça, e quanto terminar a louça, também terá terminado a máquina e quase terminando o feijão. Enquanto lavo louça coloco as “minhas descobertas da semana” no Spotify, e sempre que toca uma música que gosto, preciso interromper o lavar das louças, enxaguar as mãos, secá-las e colocar a música em alguma playlist: “Allan Maykson”, “Poéticas Teatrais”, “instrumentais”, “Para aprender”, “dormir”... Agora que salvei, volto a lavar louça. E qual seria a melhor forma para otimizar meu tempo? 

Primeira opção: Ensaboar primeiro as panelas, depois os plásticos, depois os talheres, depois lavar a pia. Após isso, secá-las sem uma sequência definida e guarda-las nos armários. 

Segunda opção: Ensaboar todas as louças, depois enxaguar todas, secar todas e guardar todas. Uma coisa de cada vez. 

Terceira opção: Ensaboar, enxaguar, secar e guardar item por item. Primeiro as panelas de uma a uma, depois os plásticos de um em um, e por fim os talheres, mas sem paciência para secar um por mim, sacudo, sopro, ou sei lá o quê, e guardo no armário molhadas mesmo. 

Já testei as três opções mais de uma vez, mas nada consciente, é porque me perco mesmo em qual estratégia utilizar. Sim, eu penso bastante em estratégias. Mas quase sempre elas não são tão estratégicas assim... 

Livros? Tenho vários começados. Tenho livros perto da cama, na escrivaninha, no guarda-roupa e três no banheiro. Todos começados neste ano. Me refiro aos da cama, do guarda-roupa e os do banheiro também... Letras? Eu pulo letras. Nem corrigi este texto, nem revisei, porque eu sei que em algum lugar vai ter coisa faltando dentro de uma única palavra... 

Eu consegui duas premiações importantes no curso de graduação em Artes Cênicas da Universidade Vila Velha, o de Aluno Destaque do Curso e o Mérito Acadêmico. Durante o curso eu desenvolvi vários trabalhos acadêmicos, por exemplo, obtive bolsas de estudos nas três Iniciações Científicas e escrevi um artigo para cada uma, também desenvolvi dois projetos de extensão. Precisei ler muitas coisas e foi muito desafiador, porque parece que o conhecimento não grudava muito sem eu agregar com outras formas de fixação, como uma prática, livres associações, outras criações, reformulações... 

Eu sempre deixei tudo para a última hora. Até meus trabalhos de conclusão de curso. Todos eles. Das duas graduações e das duas pós-graduações. E o pior, eu me sentia mal, preguiçoso, inútil, burro, e claro, desatento. 

Minha mãe sempre soube comprar roupas para mim melhor que eu. Raramente eu fazia essas escolhas. Graças a Deus. Seria um tormento escolher entre tantas opções. Então, era mais fácil alguém escolher pra mim minhas camisas, sapatos, calças, cuecas, perfumes, destinos, datas, escolas, escolhas... Escolhas? Sim! Se tornou mais fácil alguém também escolher qual seria a minha melhor escolha. 

Várias vezes, muitas vezes, eu quero comer alguma coisa que eu ainda não sei. Pego minha moto e vou procurar um lugar. Que tormento! Eu rodo em todas as ruas pelas quais já passei, vou em frente em todas as lanchonetes que já entrei, digo que quero um lugar diferente, mas sempre tem muita gente e sinto que demorar, daí eu volto para o mesmo lugar que eu havia pensado antes. Lembro de ter ficado quase uma hora circulando pela cidade. Quando em grupo é mais fácil, várias pessoas decidem e eu gosto de experimentar coisas novas. Mas, ainda me vejo ligando para mamãe para saber qual será a melhor escolha... 

Eu costumo demorar mais de 20 horas quando, quinzenalmente, preciso cozinhar as marmitas para congelar, arrumar a casa, lavar a louças, roupas e o bendito banheiro. Sublinho que moro num kit net. Eu divido a atenção com o spotify, com o whatsapp, com minhas brincadeiras de cantar, de repente paro e todo uma música que gostei, faço uma live, daqui há pouco estou no guarda-roupa tirando roupas velhas para doar, e se sinto que acabou o açúcar para o café de mais tarde, eu vou ao supermercado para comprar, e quando vi, fiz a compra do mês e comprei coisas que nem sei se vou usar. Toca uma música que me remete a uma memória, e logo paro no canto pra chorar, escrever, me debruçar numa dor que já sofri tantas vezes. Muda a música e já lembro de outra situação em que fui burro, arrogante e intolerante, e me vem um remorso e uma vontade enorme de ligar e pedir perdão... Outra música e desejo dizer ao passado que estou com saudade e de repente caio na consciência de que isso não vai ser bom pra mim e que preciso domar meus instintos. 

E o medo das coisas antes que elas aconteçam? E o medo dos meninos bonitos do aplicativo? E quando construo uma vida inteira com casa, filhos, casamente e até os problemas ao lado de alguém? Os pensamentos pesam tanto que eu invento desculpas para a pessoa desistir de mim. É muita fuga! É autossabotagem demais. Os pensamentos repletos de futuro, amarrados ao passado, um passado que eu custo aceitar que passou. E isso me desperta o medo de amar de novo, porque acredito que aquele passado não acabou. Mas acabou sim! Eu é que não quero aceitar! 

Não falei ainda que, quase sempre, não me acho merecedor do melhor. O melhor pode ficar com os outros. O meu melhor também. Eu não preciso do melhor, sendo que o medíocre me satisfaz. Amor demais? Doação demais? Me cansam! Por que será? Porque não mereço... Alguém que me dê coisas, presentes, viagens?! Não, eu não mereço. Eu quero estudar muito e trabalhar muito para me dar essas coisas sem precisar de alguém. E me pergunto: eu quero provar para quem que sou capaz? E que mal há em ser amado e ser valiosamente presenteado? Meu Deus! Eu quero chorar! Pausa!... Eu voltei a olhar a janela e as folhas da jaqueira balançando com a brisa iluminadas com a luz do poste. 

A grande verdade é que no fim, talvez, eu nem precise de um norte, mas precise mesmo é de um diagnóstico que justifique tanta desatenção, junto com egoísmo, talento, ambição, sonhos, falta de vontade... o que será isso? Coisa de artista? Artismo? 

16 de setembro de 2019

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

TEATRO PARA ADOLESCENTES: UMA EXPERIÊNCIA NO ESPAÇO CULT...

Sobre as aulas de teatro no Espaço Cult, Vila Velha
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O mês de agosto chegou com novos gostos, um sabor híbrido entre passado e presente, que justapõe dois períodos tão diferentes da minha vida em que eu lidava com um público bastante peculiar: os adolescentes. 

Durante este mês assumi as aulas de Teatro do Espaço Cult, em Vila Velha – ES, e me deparei uma vez mais com a enérgica fase da adolescência, quando tudo acontece, as primeiras crises avassaladoras, os primeiros sofrimentos terríveis, os grandes amores platônicos, a instigante curiosidade de explorar o mundo, a pertinente teimosia, e sobretudo, uma vontade ardente de construir um mundo sob a própria perspectiva. 

Em 2012 também lidei com centenas de adolescentes de uma escola em minha cidade natal, Linhares, norte do Espírito Santo, e minha função sempre esteve atrelada ao bem estar das crianças e à arte. Hoje entendo melhor que na verdade sempre foi o afeto. E continua sendo. 

Desde quando me mudei para Vila Velha (em 2016), deixei o público mais velho e precisei me aventurar do universo colorido da infância. Embora eu já fosse contador de estórias antes desse período e já lidasse com a Educação Infantil, ainda não tinha sido professor de criancinhas. Estamos em 2019, e pela primeira vez, entre a última semana de julho e durante todo o mês de agosto, dividirei a atenção com meus mais novos adolescentes, que estão construindo tão cedo sua jornada enquanto artistas. 

Quando Gabriella Saadi me convidou para desenvolver uma aula experimental, eu imediatamente aceitei, mas adverti sobre minha insegurança. Sim! Insegurança. Durante anos lidando com adolescentes e só porque fiquei alguns anos sem lidar diretamente com eles já me vi inseguro?! 
No campo das Artes Cênicas, a insegurança é um dom. Preocupante seria se sentisse demasiadamente seguro e não conseguisse afetar. Porque afeto para ser afeto, precisa ser do mesmo tamanho que todo mundo.

Preparei uma aula enorme e cheia de cartas na manga, caso não desse tempo de executar todas as etapas da minha proposta, mas a verdade é que faltou tempo, porque tudo correu muito fluidamente. O afeto nos afetou e as coisas foram se ajeitando, o nervosismo passando, sobrava espaço para risos, para diversão, trocas e no fim muitos abraços. 

A SEGUNDA AULA – 07 de agosto de 2019 


Propus o aquecimento das articulações fazendo movimentos circulares nas regiões dos pés, joelhos, bacia, tórax, ombros, antebraços, baraços, mãos, dedos e cabeça e como regra tivemos a pesquisa pessoal com o repertório criado a partir do movimentos desenhados no aquecimentos. 

Percebi que durante a pesquisa pessoal os alunos começaram a experimentar outras ações, ora dilatando mais o corpo potencializando os movimentos do aquecimento, ora desdobrando-os em movimentos outros que fluidamente iam levando o corpo a sair do lugar e percorrer o espaço. 

Percebendo o envolvimento da maioria com suas ações, orientei a explorarem o espaço cênico mantendo sempre os joelhos entredobrados a fim de facilitar a mobilidade e gerar um corpo orgânico e sem nenhum traço ou desenho do corpo cotidiano. 

Em alguns minutos de pesquisa pessoal investigando as ações do aquecimento, os alunos já exploravam o espaço por completo, variando ritmo, tônus, planos (alto, médio baixo). A concentração em investigar esse corpo me levou a introduzir uma material interno que não estava nos meus planos – muito menos no de aula (risos): a Visualização. A visualização consiste, resumidamente, em ver algo que apenas o ator vê. Ele cria uma imagem internamente, desloca para o externo mentalmente e de alguma forma tal imagem gera impulsos, ações, tônus, interações. 

Expliquei sobre a visualização rapidamente enquanto investigavam o corpo, e pedi: imaginem bolhas de sabão. Vamos estourá-las. Em seguida pedi que imaginasse balões de soprar cheios, e que estourassem com agulhas. Mais tarde pedi que empurrassem o ar e que visualizassem algo pesado, maior que eles.

Alguns conseguiam transmitir os efeitos da visualização para o corpo inteiro, outros faziam ações mais periféricas e desconexas do restante do corpo, mas alcançar um corpo integral demanda prática e sobretudo bastante consciência. 

Para desdobrar o material interno Visualização e se fazer o conceito do mesmo, orientei que cada um visualizasse alguém de quem sente saudade e que assim, fosse eu seu encontro, lá no fim da sala. 

Este, certamente, foi  momento em que todos perceberam a potência da Visualização na prática e a força cênica que este recurso movimenta. Uma aluna se sensibilizou e chorou porque colocou em cena uma pessoa que já não estava mais entre nós. Daí surgiu a conversa sobre a Potência dos Afetos e relembrei sobre o que disse em nosso primeiro encontro, no último dia de julho:

Nós atores somos uma escavação, um garimpo... O trabalho cênico nos leva a cavar esse extenso terreno-nós, esse vasto campo-eu, esse quintal-gente, único. Extraímos desse valioso terreno pessoal, pedacinhos de nós, como pedras brutas que escondem um diamante... toda aula de teatro é uma nova descoberta sobre nós mesmo, sobre como reage nosso corpo frente aos estímulos, como o conteúdo que passa sobre nossos sentidos reverberam dentro de nós, quais os limites do meu corpo num procedimento cênico, quais os meus gostos, o que me afeta e o que não me afeta; como eu lido com erro, com a perda, com falta de palavra, com a criatividade ainda pouca (porque aprende-se a ser criativo). É como se fôssemos uma cartola e também o mágico, que retira a cada hora, uma surpresa. 
Os materiais internos normalmente estarão ligados a uma memória afetiva, porque estará imbricada de conteúdos marcantes da nossa história, mas não é regra, é possível visualizar tudo e assim, deixar que o corpo possa esculpir sua expressão.

A palavra que resume o encontro de hoje para mim é FLUIDEZ. Vi os corpos mudarem de uma regra para outra sem quebrar a ação. Vi potência nos desenhos que se metamorfoseavam e desenhavam corpos extra-cotidianos ricos em poética cênica. 

Uma delícia voltar a provar energia vibrante da adolescência. 

Até a próxima aula!

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Allan Maykson é ator, encenador, professor, músico, poeta, compositor, pedagogo, arteterapeuta e graduado em Artes Cênicas; pesquisador em Teatro com ênfase na interface Arteterapia, Educação e Autismo. Tem como pesquisas basilares o Intrateatro (que dá nome à sua CIA teatral) e a Poética da Catarse. Atualmente desenvolve uma pesquisa com autistas que consiste em arte e afeto pela busca do que ele denomina de Micro-conexão. É Gestor Pedagógico de uma instituição de ensino privada e exerce ativamente seu lado artístico como professor, performer e produtor. 

Instagram: @allanmayksonlongui | @projetopalcoazul | @leonardosauvignon 
Currículo Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K8044872Z0



sábado, 11 de maio de 2019

APRESENTAÇÕES DO "INTRATEATRO: PROCEDIMENTOS CÊNICOS APLICADOS À ARTETERAPIA"



Estes foram os procedimentos do Intrateatro apresentados no Performa-ES, um evento do curso de Artes Cênicas da Universidade Velha Velha (ES). 

O intra é uma pesquisa desenvolvida por Allan Maykson, desde 2014. Contemplada por Bolsa de Iniciação Científica da Universidade Vila Velha. O intra se dedica em explorar o potencial terapêutico dos procedimentos cênicos, além de criar seus próprios procedimentos. 

O intra tem se constituído enquanto linguagem, criando seus próprios métodos e práticas interventivas. Ainda no início da pesquisa, constatou-se seu potencial na preparação de atores, na construção cênica performática e por fim, na concepção de uma poética cênica própria, esta que o autor denomina de Poética da Catarse, sua nova pesquisa, também contemplada com bolsa de Iniciação Científica da Universidade Vila Velha, além de ter seu tema de Trabalho de Conclusão de Curso e projeto de Extensão, que circula com seu monólogo Leonardo Sauvignon, cujo processo criativo é fruto desta investigação. 


Procedimento "Linha da Vida" - Parte 1



Procedimento "Linha da Vida" - Parte 2



Procedimento "Linha da Vida" - Parte 3


Procedimento "A Cadeira" 





O "Intrateatro: procedimentos cênicos aplicados à Arteterapia" integra o e-book gratuito Oito Ações em Um passo, de Rejane Arruda. 

Oito Ações em Um Passo: Contribuições para a Poética da Cena por [Arruda, Rejane]


Link para download: 


Leonardo Sauvignon


SINOPSE ESPETÁCULO  
LEONARDO SAUVIGNON (Cia. Intrateatro - Vila Velha/ES) - Ele, poeta que é, imortaliza o amor, no entanto também sabe eternizar a dor, prolongar o sofrimento, mas sobretudo, saborear a travessia - literalmente. A travessia dele se trata de um término que ele não terminou, um amor que ele não enterrou. O tempo passou, mas restou um amor bem-dito, mal-dito, redito, não-dito, dito, mas nunca superado. Leonardo e Travessia hibridizam-se no palco, se metamorfoseando em música, poesia e vinho. Vinho para todos, sofrimento para todos, Leonardo para todos, porque ele não quer mais desviver Leonardo sozinho.

Estreia (fragmento)




sexta-feira, 22 de março de 2019

ORGULHO: A MÁSCARA DE FRAGILIDADES

Por Allan Maykson

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Ilustração: Daehyun Kim

Desejo falar apenas sobre o meu orgulho, o que me pertence, o que me acompanha e de quem às vezes eu apanho. O orgulho do outro pode se assemelhar ao meu, mas ainda assim será o orgulho do outro. Da mesma forma desejo me expressar assim, em primeira pessoa, porque falo do orgulho que é o único exemplo que pretendo usar aqui sou eu. 

O maior desafio para o orgulhoso é assumir o seu próprio orgulho. Mas ouvir isso de uma outra pessoa é avassalador, mais ainda quando a esta pessoa atribuímos algum tipo de afeto, envolvimento íntimo e valor emocional. O que me move hoje a discorrer sobre o orgulho é a experiência de ouvir de fora que tenho dificuldades em assumir os meus erros. E isso foi avassalador. E desejo explicar o porquê, não apenas para me sentir melhor – porque, talvez, seja mesmo esta a postura de um orgulhoso como eu -, mas também porque sinto que quando escrevo consigo compreender melhor quem eu sou, minhas faces, minhas feras. 

O orgulho tem duas faces antagônicas: o que se mostra e o que se é. A pessoa orgulhosa é, aparentemente, muito bem resolvida consigo mesma, assertiva, desenvolve bem seus talentos, pode se destacar em algumas áreas da vida, no trabalho, na escola, por vezes ser uma pessoa esforçada e ambiciosa. Esse sou eu. 

Em contrapartida, empiricamente afirmo que o orgulho é sinal de fragilidades, por vezes múltiplas, oriundas de diversos encontros em vários momentos da existência do ser humano, cuja as relações, a convivência, a interação, lhe causou maus afetos*  – eu diria – que o leva a construir uma máscara resistente, cujo objetivo deveria ser dizer ao mundo que está tudo bem, mas no fundo, o real objetivo é impedir que o mundo descubra suas cicatrizes ou feridas que perduram toda uma vida. 

Rollo May (1971), em sua obra O homem à procura de si mesmo  me provocou muitos encontros com meu orgulho nestas palavras: 

Não há dúvida de que não se deve pensar demasiado bem de si próprio. A humildade coração é característica da pessoa realista e amadurecida. Mas ter-se em exagerado conceito, no sentido de vaidade e autopromoção, não resulta de mais autoconsciência, ou de sentimentos de autovalorização. Na verdade é exatamente o oposto. Autopromoção e vaidade são, em geral, sinais exteriores de insegurança e vazio interior; uma exibição de orgulho é um dos mais comuns disfarces da ansiedade. [...] Quem se sente fraco torna-se fanfarrão, quem se sabe inferior torna-se gabola; flexionar músculos, falar demais, ser obstinado e impudente são sintomas de ansiedade oculta, numa pessoa ou num grupo.

Há três dias me recolhi a pensar sobre o meu próprio orgulho, e tenho certeza que essa “crise” existencial não foi engatilhada apenas pelas palavras de uma pessoa, mas vem sendo processada no meu processo de coach, com Michelle Pucci*, e no processo de criação da minha performance poética musical intitulada Leonardo Sauvignon*. Ambos processos extraem muito das minhas memórias. E poeta que sou, ou melhor, artista, tendo a dedicar muita anergia àquilo que me inquieta. Se me inquieta agora, talvez seja o momento de eu aprender sobre isso agora, mesmo que perdendo. 

Vejo o orgulho como no clássico exemplo do iceberg. O que se apresenta aos nossos olhos é ínfimo diante do que se esconde. Oras, o orgulho tem raízes. Ninguém acorda numa bela manhã e diz hoje serei orgulhoso! ou que orgulho de ser orgulhoso. E se alguém o faz, nada mais é do que sua máscara falando. Sim! As máscaras não são só de usar, elas têm seu vocabulário, seu comportamento, seu tônus corporal, suas reações ao inesperado. A máscara é uma pessoa! Uma pessoa que nós mesmos elaboramos inconscientemente para transitar e sobreviver no mundo feroz. 

Existem diversas questões que podemos levantar, mas ainda não discutir: a culpa... A culpa da sociedade que implanta padrões inserindo em nosso cérebro um ser ideal, que ao crescer encontrará diversos conflitos entre seu ser ideal e o ser algo que ainda não descobriu? A culpa da ignorância dos pais que não souberam orientar e educar as emoções de seus filhos? No meu caso, a culpa do machismo e suas vastas armas brutais que quiseram dilacerar a sensibilidade, a empatia e a espiritualidade? 

Quando eu era criança, me lembro que eu vez ou outra eu chegava em casa com desenhos da escola ou então eu, minha mãe e meu pai, brincávamos de desenhar. Me lembro até hoje como eu desenhava pessoas, casinhas, gatinhos e passarinhos: com traços não muito bem definidos, formas geométricas estranhas, algo entre rasura e forma. 

Me lembro de um caso muito específico: certo dia eu desenhei meus simples, magros e rabiscados passarinhos. Meu pai disse empolgado vou desenhar uma águia pra você. E assim, ele desenhava sua estonteante água em grafite, com ricos detalhes e precisão. Era um desenho melhor que o meu. 

À medida em que fui crescendo, me tornando adolescente e engordando, meu pai dizia na sua idade a mulherada ficava louca com o papai! ou na sua idade papai já era modelo. Quer ver as fotos? Vou te mostrar as fotos! e assim eu via o deslumbrante e forte corpo do meu pai, jovem, em cima de uma passarela, confirmando o que eu definitivamente não era na idade dele. 

Ao analisar esses relatos, um profissional, com olhar cirúrgico poderia compreender a relação entre eles e o fato de eu ter me tornado uma pessoa orgulhosa/frágil. E certamente identificaria que não só me tornei orgulhoso como os efeitos que esses maus afetos reverberaram podem ter causado inúmeros estragos que se externaram na minha relação com o outro, com o amor, com meu próprio pai, com os homens, com minha sexualidade e mais fatalmente, comigo mesmo. 

Eu também não tenho respostas, mas tenho tantas sensações, opiniões e algumas certezas sobre os ecos que carrego da minha história. Quando já era mais jovem, ao trabalhar com meu pai a fim de aprender a sua profissão promissora, me via não só deslocado por não pertencer àquilo, mas me via pequeno, humilhado pelo meu pai a cada vez que eu errasse. E não bastava, também presenciava a paciência que eu desconheci a minha vida inteira, ao ensinar e orientar estranhos, que também estavam lá para aprender a promissora profissão do meu pai. 

Eu precisava ser bom em alguma coisa, já que eu não sabia desenhar águas, que eu não era modelo quando jovem e nem tinha vocação para a promissora profissão do meu pai, e quantas outras obrigações me foram impostas nesse contexto todo que eu não me lembro, mas que se fazem presentes a cada vez que eu procuro me perceber com autoconsciência. 

Eu não paro de buscar. Eu faço graduações, cursos, formações, oficinas, e me ocupo de tudo que eu ache duvidosamente que me fará bem. Eu sou um buscante. E não há mal nenhum nisso, nem em buscar aprender, tampouco em buscar a mim mesmo. O mal se hospeda em duas situações: no quanto eu me escravizo por um misterioso vazio e quanto minhas sombras atingem ao outro. 

Ouvir você é orgulhoso ou você tem dificuldade em assumir os seus erros soa tão impactantemente quanto ouvia nos tempos de infância você é um viadinho. 
Nós somos assim. Todos somos assim. Temos os nossos gatilhos que despertam faces que há tempo adormeciam em paz, ou sem paz, esperando ansiosamente a primeira vítima para dar o bote mortal. 

Os gatilhos atualmente tem sido cada vez mais efêmeros. Mas são os gatilhos de uma sociedade doente. Mas hoje não venho falar de outro doente: eu. Doente de mim mesmo, dessas minhas fatias obscuras que ecoam dentro de mim. Se ecoam dentro é menos prejudicial – entre aspas -, mas quando são emitidas de um outro, é dolorido. Nesse momento tiramos as máscaras e mostramos esse “quem também somos”. É horrível ser esse “alguém”. Dói tanto. É como uma pedra que atravessa as veias onde deveria correr apenas sangue. Ou como um comprimido maior do que a garganta está habituada. E o corpo se defende. O corpo se defende incontrolável. É tão feroz com o emissor quanto o é com a alma que o faz funcionar. 

Em meu processo de coach tenho me encontrado pontualmente com meus complexos. Existiam outros, muitos outros, que foram se desconstruindo aos poucos durante a minha formação em Arteterapia e em Artes Cênicas. Eu me transformei. Mas ainda restaram migalhas de sofrimentos nos escombros de toda essa desconstrução. 

Eu disse à Michelle, minha coach e pessoa que admiro com a alma, que eu poderia reiniciar um processo terapêutico, mas neste momento o caminho com ela tem me dado mais clareza no meu olhar desatento. Nós chegamos a um ponto onde o meu pensamento não parou de sair: o que meu pai fez comigo? E também: o que farei com o meu pai? Me refiro ao pai que está dentro de mim até hoje, e que tenho notado que já não é tão o mesmo pai atualmente. Mas, podemos falar sobre isso depois. 

Eu preciso falar sobre o meu orgulho, sobre as minhas 

FERAS 
Elas vêm. Vêm velozes
Saem dos algozes de nós
Lá no profundo. 
Num minuto só destroem 
Engolem. Atingem. 
É assim. Feras involuídas. 
Que ficam à espreita
Esperando dilacerar 
A próxima ferida. 
Fere a nós
Mas sempre encontra uma vítima. 
Estou com minhas feras adoecidas 
Porque feras saudáveis 
A gente controla, ouve, cuida. 
Feras não ditas gritam
A nós mesmos sucumbe.*

Me tornei orgulhoso – eu acho. Essa foi uma forma de defesa que minha psique deve ter encontrado para não permitir que ninguém mais tenha motivos para dizer que eu não sou bom. Eu quero ser bom o tempo todo. É uma escravidão que me deixa perdido, porque não basta ser bom numa coisa só, eu quero ser bom em tudo. E mesmo sabendo que eu não sou bom em tudo, me sinto orgulhoso em afirmar que eu confesso que não sou bom em tudo, mas dizer que sou orgulhoso ainda me fere. 

Criei péssimos afetos sobre quem eu sempre fui. A ovelha negra da família, a ovelha frágil, a ovelha tímida, a ovelha inteligente, a ovelha educada, a ovelha recatada, a ovelha cantora, a ovelha atriz, a ovelha poetiza, a ovelha esforçada, a ovelha sonhadora, a ovelha utópica, a ovelha medrosa, a ovelha reflexiva, a ovelha criativa, a ovelha ingênua, a ovelha insegura, a ovelha carente, a ovelha crente, a ovelha pastora, a ovelha mística, a ovelha mágica, a ovelha risonha, a ovelha complexada, a ovelha bastada, a única ovelha-homem entre duas ovelhas fêmeas. 
Quando Rollo May fala que o orgulho é a expressão de ansiedade em um livro que intitula O homem à procura de si mesmo, finalmente encontro sentido no porquê falar de orgulho no mesmo contexto de uma auto-procura. 

O orgulho é a imponência de uma de alma frágil que não quer ser desvendada. Ele – o orgulho – vela a si mesmo, porque o orgulho é faceiro, traiçoeiro também. É como uma erva-daninha numa árvore vívida. O orgulho é o meu disparo e também meu assassino, meu ponto franco e meu ponto terrível. Eu facilmente repudio a pessoa que fala sobre meu orgulho, é como se ele fosse só meu e apenas eu tivesse o direito de falar dele. Isso me soa tão raiz. Sim! Uma erva-daninha profundamente enraizada. Que me faz perder coisas, amores, boas relações, para ficar com meu orgulho impregnado. 

Quando me debruço em meus monstros assim, careço de estar só comigo, de dormir só comigo, de falar só comigo. E dias vêm e vão, e estrou ali, entregue a uma espécie de luto por olhar algo que me deixa morto e pútrido. É como olhar uma sombra preta estirada no chão do meu corpo, uma sombra instalada, inerte, de dar pena. 

Uma sombra que se acorrenta, que se apedreja, que se exclui. Acho que depois de tantas palavras, descobri a minha fera mais atroz: o orgulho que me habita. E, não é sábio eu querer me livrar dele, eu preciso evoluir com ele, melhorar com ele, extraindo aprendizados deles. Eu preciso, mesmo orgulhoso, perdoar a quem me fere, assumir meus erros mais pequenos, mais fugazes. Eu preciso me curar das vozes, transformar os maus afetos, reposicionar a minha ira, fertilizar a minha dor para adubar uma flor. Eu preciso me curar de mim. Embora não saiba por onde começar, sinto que aqui já comecei. 

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Me recordo aqui de Spinosa e os afetos. Os afetos passivos ou afetos de tristeza, que diminuem a força de existir e agir, afetar e ser afetado. Ver mais em www.razaoinadequada.com. 

* Atriz, cantora, escritora, coah. Ver mais em https://www.michellepucci.com.br/ 

* Monólogo de Allan Maykson. Uma performance Poética Musical. Ler mais em http://intrateatro.blogspot.com/2018/11/sobre-arte-e-dor-dialogando-com-mostra.html

* Um poema autoral, escrito em 20 de março de 2019, um dia após ter ouvido que sou orgulhoso, desencadeando uma avalanche dentro de mim. Disponível no instagram @allanmayksonlongui


REFERÊNCIAS 
MAY, Rollo. O homem à procura de si mesmo. 3 ed. Editora Vozes: Petrópolis, 1971. 

TRINDADE, Rafael. Espinosa: o que pode o corpo?. Disponível em <www.razaoinadequada.com> acessado em 22 de março de 2019. 

Saiba mais sobre Allan Maykson:

Currículo Lattes: 
http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K8044872Z0

Mapa Cultural: 
http://mapacultural.es.gov.br/agente/42906/


quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Sobre Arte e Dor: dialogando com a Mostra Jovens Encenadores

“Toda experiência está permanentemente
impregnada de uma implacável vitalidade
e de uma contundente tragédia”.
Virgínia Woolf


Pretendo aqui fazer algumas reflexões após assistir a Mostra Jovens Encenadores no último dia 14/11, que faz parte do PERFORMA-ES, temporada artística semestral dos atores em formação do Curso de Artes Cênicas da Universidade de Vila Velha.

Após as apresentações acontece ,como de praxe, uma conversa com o público formado em sua maioria por alunos, ex-alunos e professores do Curso.

Um dos monólogos apresentados, “Leonardo Sauvignon”, de Allan Maykson, causou empatia no público por tratar-se de um roteiro confessional, um amor platônico que levou o ator a transformar, ou melhor, sublimar, nos devolvendo toda sua dor em forma de arte. Um teatro performativo musical nos foi apresentado, evidenciando a pesquisa de Iniciação Científica e o Trabalho de Conclusão de Curso do aluno, configurando em cena o que ele chama e defende como “Poética da Catarse.”

Na conversa com o público após a estreia, Allan fala da dor ao realizar o trabalho, revivendo a perda de um amor, de forma simbólica em cena.  Michel Foucault, filósofo e historiador francês questiona: “A vida de qualquer individuo não poderia ser uma obra de arte?”, sublinhando com a pergunta, a essencial proximidade da arte e da vida, tal como problematizada pela noção contemporânea de Homem.

Perguntado Allan disse que o processo de auto direção foi sofrido, sempre levando às lagrimas durante os ensaios.  Chegou a pensar em suicídio em algum momento da vida e, ao fazer essa auto investigação agora para a montagem, sentiu que poderia ser levado ao desespero, mas sabiamente decidiu retornar ao analista. Para o psicanalista e professor da USP João A. Frayze Pereira, autor de “Arte, Dor: Inquietudes entre Estética e Psicanálise”, trata-se de “investigar da perspectiva dos efeitos que a obra produz sobre aquele que aceita com ela se confrontar e aceita liberar no discurso o que disso lhe resultou”.

As perguntas vindas da plateia referiam-se basicamente às questões psicológicas e Allan inclusive disse ter ingressado nas Artes Cênicas para “se conhecer melhor”. Resolvi então, bem ao estilo lacaniano de análise, dar um corte nas falas e encerrar a noite, também muito quente por conta do ar condicionado do teatro quebrado nesse dia.

Mas, chegando a casa, fiquei pensando naquilo que não foi dito. Falou-se da ligação da psicologia aplicada à arte, mas deixamos a filosofia, as referências estéticas e as questões da composição cênica de fora. Estamos no terreno das inquietudes entre Arte e Dor.

Voltando então à conversa que foi interrompida, e entrando nas questões estéticas da encenação, constato que Allan tinha o argumento e o transformou em poética cênica ao utilizar como alter ego de seu amor platônico, uma obra de Leonardo da Vinci (Retrato de um Músico) por remeter ao nome de seu amante. Essa imagem que virou cenografia (um painel fotográfico gigante ao fundo) cita obras encenadas de Romeo Castellucci (diretor da vanguarda italiana), que o ator/diretor tem como referência significativa. O recurso de usar/beber vinho  em cena (“ Sauvignon” do título da peça é um tipo de uva tinta), fez a iluminação ganhar um tom avermelhado. A luz, recortada em focos de pino, também foi usada de contra por detrás do painel fotográfico, emitindo uma sombra do ator em uma de suas cenas. A luz também recorta a fotografia/painel, enaltecendo um lado do rosto e mantendo um olho em destaque, que apaga-se na cena final quando o ator se aproxima da imagem. A música tocada ao vivo, com guitarra e teclado, e também gravada, é original e resultado de uma improvisação vinda de argumentos/palavras dadas pelo público, após celebrarem com vinho que é provado por todos durante a cena junto da plateia.

Aqui poderíamos discutir também outra questão cara ao teatro performativo, qual seja a presença x representação. Não temos um personagem, não temos a mimese, mas o próprio autor/ator/depoente, expondo de forma catártica, sua emoção em tempo real, denotando sua presença cênica, exposta aos riscos de uma improvisação inflamada. Mas não se trata de uma sessão de análise em grupo, um psicodrama, o que percebemos explicitamente na encenação foram recursos de teatralidade. Signos e elementos visuais que estetizaram o que seria uma confissão, tornando-a uma experiência estética.

Teatralidade que aparece além da cenografia e da dramaturgia da luz, também na maquiagem e no figurino (que não ficou completo para a estreia), resultado de pesquisa tendendo a um figurino clássico, que remetesse ao Renascimento (faltou uma gola que seria acrescentada à túnica que foi usada) por conta da citação de Leonardo da Vinci.

É o psicanalista inglês Donald Winnicott quem nos mostra um caminho para pensar o que foi visto e dito: “A obra de arte abre um espaço de experiência em que se articulam paradoxalmente, constitutivamente, o sujeito psicológico e o mundo”.

Marcelo Ferreira
Mestre em Artes/UFES
Professor no curso de Artes Cênicas/UVV
Novembro de 2018.











 * Fotos enviadas por espectadores.




sexta-feira, 18 de agosto de 2017

O CAOS DE ME SER - A poética de uma nova montagem



A minha aflição não é apenas não saber ao certo do que se trata o "Não eu-meu", mas de quantos ou dos "quens" se trata.

O caos de me ser é avassalador! Queria mesmo ser um Demiurgo de mim, e organizar a  minha matéria caótica segundo os preceitos do ideal de mim. Mas não consigo me desvencilhar da máxima "Quem sou eu?". 

NÃO EU-MEU
Allan Maykson

Sou meu próprio elemento atrapalhador
Minha própria oposição 
Sou afeto, dejeto, coração
Sou minha própria extensão
Minha auto-oposição. 

Mutilo meu personagem

Me misturo a ele
Sou a plasticidade dele... 

19 de agosto de 2017

Não me satisfaço com a vida que tenho, não me sinto satisfeito com minhas proposições cênicas, com minhas criações. A arte não me basta. Eu preciso do amor. "O amor que faz girar o mundo", como diz a Duquesa (eu) em Alice. 

Falando em Alice, e em Duquesa, é interessante de se pensar que ela dá voz a uma aspecto de mim: minhas sombras. Ela pode ser irônica e deve, pode ser poderosa, inteligente, sagaz, uma grande pensadora, confiante... oras, quantos desses adjetivos são sombrios? Por que os escrevi como sombrios? O que a sabedoria quer me dizer? Ato-falho?

Não obstante, a Madrasta, em Cinderela, meu personagem, é um desdobramento da Duquesa. E fico muito feliz em poder assumir, estudar e desdobrar uma construção que já era tão potente e inteira. A Duquesa é uma extensão de mim, mas é Duquesa, não sou eu. 




Poderia a Madrasta ser menos eu, menos Duquesa e mais um não-eu? O que é ser um não-eu? Quanto de não-eu posso doar à Madrasta? O Não eu-meu é pode ser uma figura distante de mim? O Não eu-meu seria exatamente essa busca insana pela distância de mim? Quando menos eu mais poético? Quanto menos eu mais personagem? Quanto mais sacrifico de mim mais não me tenho no personagem? O caos de não me ser na vida, se equipara ao caos de não me ter no pepel? O quanto o não eu-meu é experimentável, possível, degustável, plausível? 



Eu não tenho o Não eu-meu como práxis formada, fundamentada e experimentada. Não descobri meios, formas, "comos", métodos, procedimentos. Essa crise de não tê-lo me aflige e também desperta o desejo de buscá-lo, porque buscá-lo é buscar-me. Eu quero dizer que, esse meu novo projeto de pesquisa "ATOR E ALTERIDADE: O "NÃO-EU MEU" COMO PROPULSOR DE UMA PLASTICIDADE DOS AFETOS", não nasceu pelo projeto, pela necessidade de se desenvolver uma Pedagogia do Ator, não apenas isso, nasceu como uma Pedagogia para me encontrar, tal qual o primeiro projeto que dá título a esse blog, o "Intrateatro: Procedimentos Cênicos Aplicados à Arteterapia", neste eu me encontrei e ainda me descubro nele. 


Por que Alteridade? Por que "Não eu-meu"? Por que "Plasticidade dos afetos"? Como defender tudo isso? O campo da experimentação é crucial. Vivenciar. O importante aqui é assumir que o IC é uma busca por mim mesmo. E qual homem não se busca? Quem não se busca? Se não se busca, se resgata, mas estamos sempre nos movimentando com as engrenagens do desejo. 


Nas experimentações de Cinderela, eu observava tantos corpos, desenhos, ações, visualidade que eruptizavam no palco. Me perguntava: quem é quem? Quem é que está dentro? Quem é que está fora? O que introverte? O que extroverte? E se eu dissesse "Seja menos Samires!" ou "Seja mais Anastácia!", que figura viria? Que corpo a Sami poderia buscar dentro de mim, para onde ela iria ao procurar a Anastácia dentro de si? Qual parte de si seria esse personagem? 

A Duquesa e a Madrasta, quem são essas figuras? O que elas representam de mim? É possível criar algo que seja totalmente distante de quem eu sou? É possível um Não-eu que não seja meu? 



Não me pertence, mas é meu também. Eu doei, saiu de mim para alguém, não é mais meu, mas sou eu... E acredito nessa doação o tempo todo de grafias, fragmentos, pedaços de nós... Acredito que não se passa no mesmo rio duas vezes, acredito que, depois que joga uma pedra no rio, nunca mais ele será o mesmo. Levo minha existência assim... eu nunca mais serei o mesmo depois deste texto, assim como nunca mais serei o mesmo após entrar no meu quarto e me deparar com informações que me despertaram pensamentos novos ou os mesmos pesamentos num momento novo. Cada atravessamento me torna não mais o mesmo de antes e esse "antes" acontece o tempo inteiro, o passado se faz segundos depois do presente, depois dizem que o que depois só pertence ao futuro... bobagem! 

Eu quero devanear meus gritos 
Florescer em meus ritos 
E desentalar os meus vômitos. 

Quero me despir dos meus martírios 
Usufruir dos meus delírios 
Explorar esse meu eu atônito. 

Quero descobrir o que eu sou
Quero saber que não sou nada 
Que não sou pronto e acabado. 

Quero errar todos os meus pontos 
Quero ser lápis que se aponta 
Até sobrar mais nada... 

Allan Maykson
19 de agosto de 2017

As reticências são minha melhor poesia. 

Ser Madrasta pode ser um desafio pouco, por conta de alguns registros já estarem impregnados na minha tessitura corporal, porém, não me satisfaço, eu me desfaço, até disfarço, mas meu anseio é ainda construir, elaborar, rasurar, para que a Madrasta surja cada vez mais. Foram 3 encontros da nova pesquisa e alguns registros já se diferem. 

A Duquesa é fluída, a Madrasta é engessada. A Duquesa escorre, a Madrasta engessa. A Duquesa é fugaz, a Madrasta é presente. A Duquesa é a lava descendo, a Madrasta é a erupção. A Duquesa é escorregadia, a Madrasta é áspera. A Duquesa é leve. A Madrasta é firme. A Duquesa é do canto popular, a Madrasta é lírica, canta ópera... 

A relação entre as duas está na Oposição. 

O Não eu-meu também pode se apropriar da oposição entre ator-personagem, da oposição ator-animal, animal-personagem... mas desejo chegar num oposição ator-ator, personagem-personagem. Oposição dentro de um mesmo enquadramento. 

Por fim, o caos de me ser me é. A minha crise de existir, também é minha crise de criar. O Não eu-meu busca respostas para comunicar a mim sobre mim mesmo. 

Avante! 


terça-feira, 1 de agosto de 2017

UMA REFLEXÃO SOBRE O ATO DE ESTAR PRESENTE


Por Allan Maykson

Minha mente deseja refletir sobre o “estar”. E dessa vez quero me abster das teorias e citações e eleger o que pulsa dentro de mim: a crise da presença. Quero falar de uma presença que escorre nos olhos e no corpo, uma energia visceral que rouba o olhar e a presença do espectador sem que ele perceba o tempo que se dedicou àquela visualidade se doando ao que está sendo encenado.




A presença é um eco que ressoa numa via de mão dupla, ela caminha de dentro pra fora, depois retorna, de fora pra dentro, é aí que se percebe os poderes da catarse que Aristóteles defendeu. Me deixo ir à medida que me reconheço no que não é meu, mas me pertence. Um “não eu-meu” que interrompe uma atividade racional frívola e canaliza para a reflexão sobre minha existência.

Logo, o que é existir? E o que é este estado de presença que me ganha, que me toma, que me possui?



Eu gosto de estar naquilo em que existo, e quando percebo que lá existo, aquilo também passa a existir em mim. O estado de presença não pertence só a mim, não está somente em mim, está nos arredores da minha existência em determinada circunstância. Estar aonde meus pés estão me deixa atenta ao solo no qual eu piso. Eu tiro meus calçados para que uma parte receptora do meu corpo me dê notícias sobre esse fragmento de mundo que está sendo habitado por mim.

Estar presente remete ao estado integral de quem somos na integralidade do que a vida está nos propondo viver em determinado momento. Logo, estar presente numa praia à noite é perceber as sutilezas as quais a presença da praia me submete à degustação.





O momento de “estar” supera a efemeridade do relógio, mas reafirma a magnitude do tempo. No estado de presença o tempo é contado à medida do que nele foi vivido. Assim, quando estamos presentes, num estado de ausculta do universo interior e exterior, podemos entender, superficialmente (talvez), o que chamam de “o tempo de Deus”.



É engraçado como falar sobre presença me leva a discorrer sobre o existir, que remete ao tempo, que me conduz a Deus...

Outro dia eu resolvi estar presente na Praia do Ribeiro, em Vila Velha, ES. Uma simpática praia onde ficam atracados alguns barcos. É uma vista maravilhosa e introspectiva (quando queremos que seja). Sentei num banco de concreto, e por alguns minutos olhei o horizonte mais próximo e os arredores de mim. A minha presença integral foi se estabelecendo, e assim, eu pude perceber a presença daquela fragmento de mundo, e começamos a estabelecer um diálogo. A linguagem era o vento, o que ele carregava, o que ele mexia, o que ele movimentava, o que ele tirava do lugar e o que ele não tirava; as ondas que ele ornamentava, as partículas de areia que ele levava ao céu, as folhas que ele atirava ao chão, as rochas que apenas acariciava... Ah! Que belo de um diálogo... de repente um silêncio se fez, assim, não havia mais vento, nem folhas caindo, nem ondas surgindo, nem grão de areia subindo, nem cheiro, nem uma mudança na palheta de cor, a vida parou diante dos meus olhos para e eu entendi, finalmente, o que era a onipresença de Deus. Deus era tudo aquilo, todo o horizonte, toda rocha, todo vendo, toda praia, toda areia, toda concha, toda folha. Tudo. Eu respirei fundo e chorei, porque a minha presença se entrelaçou na presença daquela fatia de vida e ela conversou comigo. Eu existi nela e ela existiu em mim, logo, estávamos, ambos, sendo um estar presente.



No teatro, a minha presença enquanto ator sobrepõe os meus olhos. E o que procuro como presença enquanto espetador de um espetáculo é ser o alvo de um olhar que me assassina com sua munição de preenchida de presença. Eu quero ser arrebatado, e me deixo levar... Meu corpo sai da cadeira, eu respiro fundo, eu seguro o peito, porque quando identifico uma presença vívida e pulsante, é porque ela já habita em mim e eu nela.



ESTADO DE PRESENÇA
Allan Maykson

É que eu não sei não-estar
Não sei estar-ausente
Não sou eu isto de estar-não-estando...
Sim... esta-n-d-o...
A atividade estar.
Não sei estar-estático
Senão meu corpo se apresenta
E minha mente não.
Ou, minha mente se apresenta
E minha alma não...
Não sei estar-despresente
Estar sem presença
Estar pelo “estou”
Ou pelo “está”.
Gosto de estar pelo “sou”
E gosto de ser o e-s-t-a-n-d-o.
Ah, eu gosto da vivência
Não apenas a presença.
Se não estou, eu saio
Se eu corro é porque nunca estive.
Se eu fico é porque
Estou no estado de ser o estando
Aí sim eu existo naquilo
E aquilo existe em mim...


01 de agosto de 2017


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Imagens: Gabriela Júlia