Allan Maykson Longui de Araujo²
"...o mesmo impulso que pode engendrar uma ação física, pode também
engendrar uma ação vocal, ou uma ação física/vocal. Podemos afirmar, inclusive,
que a voz também é corpo."
Renato
Ferracini³
O trabalho vocal, desde o início da minha experienciação, se
enquadra no nível de mais elevada complexidade no meu caminho atoral, quer seja
numa construção vocal de uma personagem, quer seja nos exercício mais simples
de aquecimento nos momentos de pré-expressividade e preparação do aparelho
fonador.
Apesar do custoso
trabalho, descobrir ou construir uma voz se tornou um dos procedimentos mais
incríveis na minha concepção, porque se trata de um outro corpo, um corpo sobre
outro, um corpo dentro do outro, um intra-corpo, uma ressonância do corpo. Como
diz Renato Ferracini "voz também é corpo". (FERRACINI, Renato. 2001, p.
166)
Dentre as tantas
questões que se levantam, primo pela ausência de palavras para descrever os
ecos internos que a pesquisa vocal é capaz de suscitar, os planos que esta
experimentação é capaz de nos transportar, o desprender-se de um estado
corporal para um estado metafísico, no qual a nossa presença em determinado
espaço cênico não é mais sentida, ela é sentida numa atmosfera outra, estranha
e desconhecida, a atmosfera da nossa imaginação, do nosso mundo interior.
Afirmo tais
impressões porque estas me foram vivenciadas numa aula de voz na qual
investigamos ressonâncias e também experimentamos a ressonar das vogais
correspondentes a cada centro de força do corpo como excitadoras da “energia
emocional pré-cênica”, de acordo com Quinteiro (1989, p. 85), que discorre
sobre os efeitos desse procedimento:
[...] o
centro do lu/ 'terá usado para momentos de emoção sublimada, de grande
atividade do intelecto, do racional. No centro da vogal le/, encontramos
a facilidade da palavra que favorece as personagens prolixas, verborrágicas. Já
a vogal /0/ favorece as paixões humanas no seu grande leque, indo das
simples simpatias as paixões intempestivas, as antipatias e ódios ferrenhos,
passando pelo vulcão do ciúme, das gélidas invejas, etc. O centro do lil está
cheio de receio, medo, timidez e temor, contrastando com a vogal lal, com
o seu efervescente centro de criação. A energia pélvica é de grande forca
criadora, caracterizando-se pela sua duração efémera, o que nos permite
recomendar cautela com o seu uso e, principalmente, com o seu abuso [...].
Imprimindo minha experiência em
relação ao supracitado, pontos específicos me causaram mais excitabilidade
emocional, como no “u”, a primeira ação vocal para esse trabalho energético.
Comecemos pelo som da vogal / u/. Vamos colocar as nossas mãos levemente
unidas, dedos com dedos, no centro da nossa testa. [...] Mantendo urna
respiração suave e olhos fechados, comecemos a emitir o som do jul. Não é
necessário gritar, apenas iremos manter o som dentro do tom médio, realizando a
emissão pelo tempo que nos pareça necessário. (QUINTEIRO, 1989, p. 83)
O “u” foi a vogal cujo eco me
levou ao desligamento ou silenciamento das atividades racionais do cérebro,
intercedendo assim, por um estado cênico de total entrega àquele procedimento.
Percebi que, nessa fase
introdutória, a busca pela vibração da região cuja vogal está sendo canalizada,
é extremamente racional, gerando um distanciamento das impressões emocionais
que ela poderia propor. Contudo, após encontrada a postura vocal na qual o
crânio vibra, o lugar para as insurgências emocionais se abriu. Penso ainda
que, a racionalização da ação vocal faz parte da abertura desse caminho pelo
qual ressonâncias da emoção devem passar.
O centro do “e” me foi a de menos
impulso emocional e menos desafio na busca da vibração. Nesta etapa, “As mãos ficarão unidas na garganta, mais precisamente na altura
da cartilagem tireoide, ou do popular "gogó” [...]”. (idem)
Percebo o “e” como uma vogal de
fácil pronunciação e identificação de suas vibrações, é como se ela tivesse a
qualidade de “tempo-de-espera” para o próximo passo, como se corpo necessitasse
dessa “pausa” para que o porvir.
Enquanto o ressonar do “e”
suscitou poucas imagens e estímulos emocionais, o “o” veio como um avalanche de
imagens, lembranças e afetos. Foi o momento em que a voz solicitou as primeiras
lágrimas no procedimento. Ali começava o efeito mais expressivo da ação
interna, evocada pela vogal “o” canalizada no centro da região torácica. Nessa
etapa a professora pediu que organizássemos em duplas, para que ouvíssemos esta
vibração no colo do colega. Foi marcante e profundamente íntimo. Marcante
porque era possível ouvir a musicalidade entre a ressonância, o som dos
batimentos cardíacos e da chuva se desmanchando no telhado da capela. Sim,
nesta noite a aula foi na capela da Universidade. Pensei “quantas pessoas na
vida tiveram a oportunidade de recostar seus ouvidos num peito de um ser humano
para apreciar o som genuíno da vida?”. Intimo, porque um indivíduo estava
emprestando o seu interior para ser escutado, era uma troca de “intras”. No
final dessa etapa agradeci à minha parceira pela confiança, pela empatia.
Percebi, desde então, que os
muitos corpos ali presentes começaram a alcançar um outro estado, cada um
dentro de seu nível de profundidade deixava vazar uma energia que era sentida
pelo calor e também por linhas não decifráveis de presenças invisíveis, mas
sensíveis.
[...].Vamos partir do
entendimento de que o som é energia, energia sonora, e consideremos também que
essa energia pode ser amplificada, quando dirigida para alguns pontos
específicos do nosso corpo. (QUINTEIRO, 1989, p. 82)
A energia se amplificava na
medida em que os centros energéticos iam cada vez mais fundos, como na região
do estômago (“i”) e depois nas nádegas (“a”). Foram os pontos mais críticos e
intensos ininterruptamente. Crítico porque a racionalização da busca pela
vibração se tornou volátil. Era um jogo ente dentro-fora,
introversão-extroversão, uma relutância entre razão-emoção-percepção. Uma busca
incessante que evocava sentimentos pessoais silenciados, como culpa por ter
calado o que eu deveria ter dito, raiva por eu ter essa característica de não
ferir o outro em detrimento do meu bem-estar emocional.
Levando em consideração essa
imersão no palco da psique a partir do externar vocal individual em articulação
com o coro, as ressonâncias do “a” foram catárticas, arrebatadoras. Neste
último momento do procedimento, a forma que encontrei de deslocamento da voz
para as nádegas foi a de “engolir o som”, ou seja, eu produzia o “a” e aos
poucos engolia o som até que encontrasse seu centro energético correspondente.
Nesse processo, minha embocadura se organizou como se eu estivesse sendo
obrigado a me calar. Era um grito interno que queria extravasar para todo o
corpo, me fazendo recordar de uma citação de Braga (2007):
O sujeito se dissolve
nas suas vozes internas e grita ações. Ele se trans-figura, transpõe, se
exalta, transcria e até se deforma ou paralisa. Às vezes histeriza. A essência
histérica na ação vem a ser um excesso humano possível, aceitável e pode ser
até admirável numa composição cênica.
As impressões que as ações vocais
eclodiram, as imagens que as mesmas ações suscitaram, as emoções que elas
despertaram, me transportaram para um estado cênico orgânico, crível. As
imagens me possuíram.
Ao absorver corporeamente traços
do imagético, foi possível agregar a esse estímulo emoção, contexto e por
conseguinte, uma voz que dava existência auditiva àquilo que eram apenas
imagens desconexas.
Quando a imagem é absorvida, ela
se torna símbolo, e com os símbolos tudo podemos fazer, e claro, eles conosco.
Logo, no trabalho atoral, podemos perceber que, tudo se cria e se transforma,
ou então, como nos deixou escrito o considerado pai da química moderna,
Antoine Laivosier, "nada se cria, tudo se transforma", mas o que
nos interessa integralmente sobre a criação é que, a forma de o ator dar forma
às coisas é ultrapassando fronteiras, as suas próprias de racionalidade,
compreensão, explicação, "porquequização", justificativa.
A voz, tal qual as fisicalidades,
o corpo, dos personagens devem ser um caminho de descoberta, precedido da ação
de investigação, uma procura insana por poética, quando a poética está
justamente impregnada na insanidade das ações, sejam elas físicas ou vocais,
sejam elas não-ações, ações-monstro, ações-devir, mas no fim, ações
orgânicas.
A
voz pulsiona o corpo internamente, o pluga a um estado de consciência cênica. O
eu-circunstanciado para um trabalho vocal não abre mão do corpo, contudo,
"A voz não possui esse corpo
concreto, mesmo assim podemos falar de uma musculatura da voz que imprime,
no espaço, uma vibração, com uma intensidade e uma espacialidade.
(FERRACINI, Renato. 2001, p. 165)
Na capela, a voz
ocupava todo o vazio existente. Não havia silêncio suficiente para distinguir
de quem era tal ressonância. O coro preencheu o espaço e estabeleceu um lugar
ritualístico semelhante ao sagrado, e por que não inferir que era sob uma
atmosfera espiritual que nos colocamos, atmosfera esta construída baseada no
que vivemos e acreditamos.
Era um espaço para muitos questionamentos pessoais, para a
aflição de descobrir uma voz atoral que poucas vezes consigo alcançar.
Experimentamos muitas possibilidades. “O problema, no entanto, não
é ter uma voz assim ou assado, mas sim descobrir as possibilidades vocais reais
de cada indivíduo [...]”, perceber em quais momentos uma voz cênica aparecia,
quais os impulsos necessários para esse encontro, quais ferramentas. A voz é um
elemento de estudo complexo para o ator, e “é um dos elementos imprescindíveis
ao seu trabalho cênico e que não deve ser relegada ao abandono.” (QUINTEIRO,
1989, p. 43)
A voz possui a sua expressão, a
expressão é precedida pela respiração, que
[...] é um dos
elementos-chave na busca das emoções.
Em todas as emoções
humanas, a respiração é um fato presente, ativo e dando características a cada
manifestação emotiva.” Para gerar pânico, a força respiratória é maior, mais
rápida, também o serve para despertar outros sintomas como o medo, o susto. (idem, p. 58)
Me recordo bem de determinadas cenas
apresentadas nas aulas de Interpretação, na qual procuramos aplicar todos os procedimentos
estudados nas aulas de Voz e Corpo, nas quais a respiração exerce a função
expressiva organicamente, solicitando a presença total do ator, um estado de
inteireza. É como se o abdome envolvesse todo o corpo para executar a sua ação.
No LUME, o corpo da voz está na
força/impulso que se origina no abdome. Claro que a respiração também é fator
fundamental. Grotowski até nos fala de uma respiração total, que engloba a
respiração abdominal, torácica e intercostal, como elemento fundamental da voz.
(FERRACINI, Renato. 2001, p. 167)
A respiração total, conforme sobredito,
apresenta-se como uma síntese que justifica o empoderamento da respiração na
expressão. Assim, o ator que se predispõe a experimentar seu corpo em prol do
trabalho expressivo a partir desses procedimentos respiratórios, pode se
aproximar ou alcançar esse estado de inteireza, de presença, uma presença
cênica impregnada de energia, fazendo-nos recordar de Barba (1995, p. 55)
Não se trabalha no corpo ou na voz,
trabalha-se na energia. Assim como não há ação vocal que não seja também ação
física, não ação física que não seja ação mental. Se há treinamento físico,
também deve haver treinamento mental.
Entendo por meio desta citação que,
existe um estado atoral total, orgânico, inteiro, pronto, decidido, que se
atinge através de princípios energéticos. Atingimos um estado energético de
presença quando conseguimos empilhar os diversos conteúdos pessoais e do
personagem de sorte que eles estejam acessíveis e prontos para a expressão. É
um diálogo incessante entre o dentro-fora, os estímulos internos e externos, as
atualizações de memória, de afetos. São muitos os elementos que podem implodir
a partir da respiração. Ela solicita a inteireza do ator.
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Notas
¹ Artigo
sobre a disciplina Voz III, do curso de Artes Cênicas da Univerdiade Vila
Velha, da turma ACN3, ministrada pela Prof. Ms. Lara Couto.
² Graduado em Pedagogia
e especialista em Competências Docentes com Ênfase no Ensino Superior pela
Faculdade Pitágoras - Campus Linhares (ES). Atualmente estuda pós-graduação em
Arteterapia pelo Instituto Fênix de Ensino e Pesquisa e, concomitantemente, Licenciatura
em Artes Cênicas pela Universidade Vila Velha. É integrante do grupo de
pesquisa "Poéticas da Cena Contemporânea", com seu projeto
“Intrateatro: procedimentos cênicos aplicados à Arteterapia” sob a linha de
pesquisa “A Poética Cênica, Seus Dispositivos e Estratégias de Transmissão”.
Possui experiência profissional em cursos de pós-graduação e graduação como
docente convidado e substituo, e em todos os níveis da educação básica como
professor, coordenador de cursos preparatórios e coordenador geral. É
membro-fundador da dupla Meninice de música, poesia e contação de histórias e
da CIA “Cômodos” de teatro.
³ FERRACINI,
Renato. 2001, p.166.
Referências
BARBA, E.; SAVARESE, N. A arte secreta do
ator: dicionário de antropologia teatral. São Paulo: HUCITEC, 1995.
BRAGA,
Bya. Ator de prova: questões para uma
ação-física coral. IV Reunião Científica de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes
Cênicas. UFMG, 2007.
FERRACINI, Renato. A arte de não interpretar como poesia corpórea
do ator.
Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2001.
QUINTEIRO,
Eusosia Acuña. Estética da voz: uma
voz para o ator. Capítulo Segundo -
Voz. São Paulo: Summus, 1989.
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