segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

CRÍTICA: FILHOS DO PASSADO, sem espectadores, mas responsáveis

por Allan Maykson¹


A CIA de Lata, composta por seis integrantes, todos estudantes do curso de Artes Cênicas da Universidade Vila Velha, instituição na qual a CIA está vinculada, surpreendeu  com seu espetáculo performativo apresentado em 27 de novembro de 2016, dispensando o palco do Teatro Municipal de Vila Velha e evocando um tema delicado e tratado, normalmente, com humor no cenário teatral: a população em situação de rua. 

Cena do Espetáculo "Filhos do Passado". Foto: Gabriela Julia

     Um teatro tomado pela fumaça, potencializando a iluminação azul que oferecia ao ambiente uma sensação não apenas noturna, mas também, soturna; quase não se via os rostos, apenas corpos andrajosos, atores já em cena, isolados, traçados os semblantes com maquiagem de sofrimento, ódio e loucura. 



Cenas do Espetáculo "Filhos do Passado". Foto: Gabriela Julia

     Bastava adentrar às cortinas para sentir a tensão do ambiente, a sensação obscura de que ali não era um espaço teatral, mas sim, um galpão abandonado onde moravam os andarilhos, e nós, não éramos espectadores, éramos intrusos, invasores daquela margem social, daquela fatia da sociedade, invisível e negligenciada. 

Cena do Espetáculo "Filhos do Passado". Foto: Gabriela Julia

     Ritmo, divisão de foco, cenas simultâneas, repetição de ações vocais, personagens loucos, histéricos, viciados, insanos, perturbados, traumatizados, agressões físicas e morais, foram características que despertaram o medo e a aflição de quem assistia. Víamos, na encenação, frutos do passado, de experiências delicadas de vida, víamos consequências do abandono, efeitos da descrença em relação à prole, resultados de muitos “nãos” que são proferidos todos os dias por e  para milhares de indivíduos. 


Cenas do Espetáculo "Filhos do Passado". Foto: Gabriela Julia

     O espetáculo que trazia em sua poética elementos do Teatro da Crueldade, de Antonin Artaud, envolveu os presentes em todos os sentidos sensoriais. Os atores solicitavam os espectadores com perguntas, gritos e outras ações, nestes momentos era possível sentir um cheiro forte que ardia as narinas, um cheiro que denunciava a entrega dos atores à obra, quando se propuseram a elaborar esse estímulo sensorial, e também denunciava a realidade do teatro, nua, crua e pulsante, trazendo à memória o espetáculo de Romeo Castelucci, "Sobre o Conceito do Rosto do Filho de Deus", no qual o cheiro das fezes do senhor (personagem) que sofria incontinências invadiu o teatro.

     Há que se destacar o paladar, sim, porque nós enquanto espectadores, provávamos da nossa própria saliva ao estar cara-a-cara com as nossas atitudes de negligência em relação aos moradores de rua, o desrespeito e a invisibilidade por nós doada. 

     FILHOS DO PASSADO apresentado justo naquele teatro, localizando na praça do Centro de Vila Velha (ES), era quase uma ironia da vida, uma experiência dual: dentro do teatro, a peça sobre moradores de rua, e fora, a realidade destes que sobrevivem nos espaços públicos da praça. 

      Aos que apenas assistiram, devo presumir que a consciência crítica e sensível não saiu do lugar, já aos que experimentaram, certamente deixaram o teatro com o olhar excitado capaz de ver e enxergar, não só as pessoas marginalizadas, mas o mais invisível dos seres, a si mesmo. 

      Assistir FILHOS DO PASSADO foi uma experiência para sair da qualidade de espectador e ocupar o papel de responsável. Por mais espetáculos que nos tiram do prumo! 

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¹Allan Maykson é graduado em Pedagogia e especialista em Competências Docentes com Ênfase no Ensino Superior pela Faculdade Pitágoras - Campus Linhares (ES). Atualmente estuda pós-graduação em Arteterapia pelo Instituto Fênix de Ensino e Pesquisa e, concomitantemente, Licenciatura em Artes Cênicas pela Universidade Vila Velha. É integrante do grupo de pesquisa "Poéticas da Cena Contemporânea", com seu projeto “Intrateatro: procedimentos cênicos aplicados à Arteterapia” sob a linha de pesquisa “A Poética Cênica, Seus Dispositivos e Estratégias de Transmissão”. Possui experiência profissional em cursos de pós-graduação e graduação como docente convidado e substituo, e em todos os níveis da educação básica como professor, coordenador de cursos preparatórios e coordenador geral. É membro-fundador da dupla Meninice onde desenvolve trabalhos de música, poesia e contação de histórias.


terça-feira, 13 de dezembro de 2016

"LINHA DA VIDA" - UM PROCEDIMENTO DO INTRATEATRO

INTRATEATRO - PROCEDIMENTOS CÊNICOS APLICADOS À ARTETERAPIA



No último domingo de novembro, 27, na 6a Abertura de Processos Criativos das Artes Cênicas da Universidade Vila Velha, apresentamos recortes do INTRATEATRO, um precioso projeto de pesquisa que estou desenvolvendo a partir do diálogo entre as linguagens Cênica e Arteterapeutica.

Fizemos pela primeira vez e já em cena a "Linha da Vida", um procedimento resignificado para a metodologia do "intra" (uma abreviação do título).

O resultado foi uma performance terapêutica, cheia de entrega e conteúdos postos em cena. Desafios como o de uma integrante que nunca havia pisado num palco, ainda mais para questionar seu corpo em cena.

Me sinto realizado porque o INTRATEATRO é uma realidade, tem criado seus próprios métodos, procedimentos e termos, tem nos ajudado como seres humanos no caminho de individuação e nos feito entender que o temos é o aqui-agora.

Sobre o trabalho de Grotowski em diálogo com a nossa proposição, Silva (2013, p.52) nos felicita:
" O desnudar-se equivale, para o ator, a expor a parte mais íntima de si mesmo, um ato de "autopenetração" que revela e sacrifica ao público sua parte mais dolorosa..."









SEJA UM EXPERIENCIANTE DO INTRATEATRO E EXPERIMENTE-SE!