quarta-feira, 4 de maio de 2016

SEM FALA INTERNA SEM TEXTO

POEMAS
Allan Maykson

Têm palavras que não só me tocam 
Me tomam!
Entopem a garganta 
Me Implodem! 
Alguns poemas não só me tomam
Me bebem!
Me roubam a paz
Me roubam por trás
Fatal-e-Abrupta-mente 
Num repente desigual. 
Algumas declamações não me bebem
Me vomitam!
Escarram na minha cara crua 
Palavras que eu preciso ouvir. 
Me acusam
Me abusam
Me usam 
Me... calo...

04 de maio de 2016

Uma proposição muito feliz para esta aula foi a elaboração de falas internas para os poemas que íamos apresentar. Quero considerar que essas apresentações tratam o poema de maneira integralmente cênica, extra-cotidiana. O poema é material para elaboração de imagens, visualizações, substituições e outros dispositivos cênicos que levam à uma "declamação" expansiva, dilatada  e conseguintemente à uma eminência poética. 

     A elaboração desse "subtexto" é uma herança deixada por Stanislavisky como uma ferramenta de apropriação textual do trabalho atoral cujos estudos eram baseados apenas nas leituras cruas dos roteiros. Stanislavsky era ativista da construção interna do texto, afinal, ele reconhecia a presença de muitos conteúdos subjacentes à palavra.  (PIACENTINI, p. 66, 2011) Mais tarde, Eugênio C. Kusnet, ator de formação Stanislaviskiana abordará uma modalidade do subtexto chamada por ele de "fala interna". 

     Existe também o "monólogo interior" adovogado pelos dois e também por Knébel. "O ator conversa consigo como se fosse o outro que escuta; pensa durante a cena. Esta voz marca. Esta voz, ele fixa via manuscrito - e repete." (ARRUDA, p. 3, 2012)

     A fala interna trata daquilo que o texto não diz, é uma subpartitura, um subproduto  que deve ser capaz de sustentar a atividade cênica ou a ação, quer seja física, vocal e mental. 


O POEMA - VIVO (Lenine)
A FALA INTERNA
Precário, provisório, perecível;
Falível, transitório, transitivo;
Efêmero, fugaz e passageiro

Ah! O homem!
Eis aqui um vivo, eis aqui um vivo!

Eu me salvei!
Impuro, imperfeito, impermanente;

Não acredito!
 Incerto, incompleto, inconstante;

Chega dar graça!
Instável, variável, defectivo

Ódio!
Eis aqui um vivo, eis aqui...

É verdade...
E apesar...
Do tráfico, do tráfego equívoco;
Do tóxico, do trânsito nocivo;
Da droga, do indigesto digestivo;
Do câncer vir do cerne do   ser vivo;
Da mente o mal do Ente coletivo;
Do sangue o mal do soro positivo;
Joga tudo na cara!

E apesar dessas e outras...
O vivo afirma firme afirmativo
O que mais vale a pena é estar vivo!
Contunua!!!

É estar VIVO
VIVO
É estar VIVO
Gol !!!!

Não feito, não perfeito, não completo;
Não satisfeito nunca, não contente;
Não acabado, não definitivo


Eis aqui um vivo, eis-me aqui.


                        
    Analisando a tabela, é possível observar claramente que para a última estrofe do poema eu simplesmente me esqueci de elaborar a fala interna. O resultado disso foi fantástico! Eu simplesmente não consegui apresentar a última estrofe da música mesmo sabendo da letra. Tenho uma certa intimidade com essa canção, mas o material interno foi tão bem delineado que o que não entrou no trabalho pré-expressivo não conseguiu dar vasão. 

    Concluo, portanto, a partir desse fenômeno que a fala interna, além de enquadrar organicamente os materiais, também tem o potencial de impregnar a palavra física (poema, roteiro, texto) no corpo e na mente, porque a sua construção é multi-materializada, ou seja, utilizamo-nos de diversos recursos que trazem consigo uma memória do que se deseja externar, a palavra física acaba se embricando nesse material interno que se comunica o tempo todo com as nossas memórias (corporal e mental). 

     Piacentini (2012, p. 66) aponta que "o que existe em uma ação cênica é a junção inseparável entre o corpo e o mental, o físico e psíquico, o anímico e corpóreo", fomentando a energia circundante e imparalizável da dilatação mental tão defendida por Eugênio Barba em "A Arte Secreta do Ator" (1995). 

      Arruda (2012, p.1) sustenta essa íntima relação assinalando que "o manuscrito revela-se como um instrumento de fixação dos impulsos e enquadre das cenas na criação atoral. Implica a profunda intimidade entre palavra (escrita) e corpo." 

     Na próxima de aula nosso exercício será o trabalho com a repetição desse poema, com a apropriação integral do mesmo, do todo, do poema físico e do poema interno. Certamente a memorização desse material trará maior liberdade para exploração de nossa plasticidade tanto corporal quanto vocal. Digo isso com certa propriedade porque a música estava toda guardada por mim, então essa liberdade de expansão permitiu uma exploração digna ao poema de visualidades.

terça-feira, 3 de maio de 2016

ESTAVA LÁ A PARTITURA QUE EU NÃO QUIS

O ABANDONO
Allan Maykson

Um caminho de (auto) negação
de ausência de mim.
Os outros corpos na minha ação
geraram o estopim
gestaram a vida que eu perdi 
a vida pela qual não me doei 
foi como ver um filho abandonado 
por outra família criado 
vindo na minha cara e bater. 
A minha alma saiu de lá 
e pra lá não quis voltar
porque achou que aquele lugar 
era uma cabana frágil demais. 
É impressionante que todo vazio
se preenche até mesmo fora de nós...

03 de maio de 2016



Essa aula de corpo foi um pouco diferente. Mas para dizer sobre ela, preciso da mesma inspiração que nela tivemos:

Gal Costa e Zeca Baleiro - Vapor Barato.



Comecemos o aquecimento com outras proposições e não mais torcer, furar e empurrar o ar, mas sim, arranhar, socar, puxar, chutar e beliscar. 

CALEFAÇÃO
Allan Maykson

Lanternas e pausas 
Escuros e espelhos
- os de fora e os de dentro. 
Substituições, visualização dos fatos 
- odiados, criados, esquecidos e reprimidos. 
Suor e respiração 
gás e oxigênio 
o degustar do veneno interno
as portas do inferno 
contrapondo o terno 
desenlace do que seria eterno. 
Figuras e visualidades 
ora inteiro, ora metade 
ora livre, ora em grades 
ora morto, ora "mate!"

03 de maio de 2016


     Anteriormente nos foi pedido para roteirizarmos alguma das partituras físicas criadas a partir dos textos de Tennessee Williams para desenvolvermos nessa aula, poderia ser a nossa ou a de outra pessoa, contudo a partitura deveria ser feita a partir do vídeo. A minha eu não quis, mas outras pessoas quiseram, e sobre o que senti quando a vi acabei de expressar no primeiro poema. 

     Me interessei pela partitura detalhista de Sami, por um auto-desafio mesmo. Eu queria experimentar movimentos sutis, pequenos, os quais tenho dificuldade de realizar. Por isso, comparando minha partitura com as outras percebei que eu poderia deixar a minha e absorver uma outra que me trouxesse maior repertório corporal, no entanto, acabei por criar repúdio sobre a minha construção. 

      O trabalho de roteirização consistia em descrever as ações, dar nome para cada uma delas e atribuir falas internas, realizei os dois últimos comandos por falta de entendimento mesmo: 

Ação 1: Tapete de grama
Fala interna: “Deixa eu me ajeitar aqui no chão”.

Ação 2: Toque Labial
Fala interna: “1,2,3,4...alguém aí? 1,2,3,4...alguém aí?”

Ação 3: Agressão
Fala interna: Larga. Larga! Me larga!

Ação 4: Dança do Cisne
Fala interna: “Preciso desamarrar essa mão com cuidado, (furar o ar) depois desamarrar a outra e levantar sem fazer barulho.”

Ação 5: Fuga
Fala interna: “larga o meu cabelo. Larga o meu cabelo. Larga!”

Ação 6: Arrependimento
Fala interna: Que nojo de você! Que nojo! Que nojo!

Se ajoelha
Ação 7: Fraqueza
Fala interna: Como eu fui burra!

      Execução da partiturização:



      Esse trabalho de partiturização propõe uma apropriação visualmente individual da partitura do outro. É visível o efeito que a fala interna possui na autenticidade da realização da mesma partitura por pessoas diferentes. Cada experienciador tem a sua identidade e as visualidades que suscitam são frutos de uma construção bem elaborada de um arranjo que encapsula a memória pessoal do ator com os conteúdos externos, promovendo uma variação riquíssima de fisicalidades que conversam in cena. 

      Barba (1994) defende que o pensamento também é uma ação. Para ele "não há ação vocal que não seja ação física, e nem ação física que não seja ação mental", sustentando, assim, o que ele chamou de Dilatação Mental, o movimento interno que vasa para todo o corpo, tal qual a função da pré-expressividade também teorizada por ele. 

      Por fim, em se tratando de efeito psicológico, ver a minha partitura sem mim foi chocante, mas de uma maneira muito positiva, porque vi mais que a beleza ausente de outrora, vi verdade nos olhos, essa verdade nos olhos conversou comigo, me inquietou. Bom, "amanheceu, é hora de voar".