sexta-feira, 11 de março de 2016

A VOZ QUE NÃO SAIU

Ainda utilizando-se da absorção dos fragmentos do texto do dramaturgo Tennessee Williams...


Para me organizar melhor, preciso recapitular. Primeiro, na aula de Corpo selecionamos algumas frases do referido texto, que nos serviu como fala interna física, a partir da seleção, elaboramos uma partitura corporal representando o que introjetamos da absorção, os desenhos corporais basearam-se nos movimentos que fizemos nas técnicas de preparação do corpo. 

     Depois, na aula de Voz demos o fôlego para esse corpo, baseado ainda no material físico (o texto). Criamos uma identidade, uma partitura vocal, regrada de sons arrítmicos e irregulares, porém, apreendidos nas técnicas de expansão vocal. 

     Por último, nos foi dado um dever de casa: inserir os sons numa narratividade. Estudar a estética sonora e vasculhar os escombros de nosso pensamento para encontrar palavras em que este som possa se inserir, mas de maneira orgânica, e para esse efeito de organicidade acontecer, é preciso criar uma relação com essa narratividade, logo, o material físico deverá ser "esquecido" e a fala interna ser um produto nosso. 

     Para relembrar, estas foram as frases que selecionei:



 "Quando eu cantava..."
    "... calar a boca."
    "...todos os namorados dela."
    "Agora eu sou popular..."
    "Como eu danço bem."
    "...medo..."

     Pois bem, hora de ir para casa. Talvez não tenha ficado claro o que eu deveria fazer. Sentei e tentei fazer os sons e para cada um procurar uma narrativa, uma palavra, uma verbalização, em dois casos até que consegui, mas ainda estava vazio, não estava cênico, não consegui criar uma relação com a palavra utilizando-me dos recursos da fala interna, por exemplo. Não fazia sentido para mim. 

     Confesso não ser tão persistente, porém, durante cada dia da semana o dever de casa vinha à tona querendo ser realizado. Tentei, então, criar primeiramente as falas internas para depois externá-las, mas também não conseguia. Eu realmente estava confuso. 

     Me entreguei à minha limitação e decidi esperar o dia da aula para ter mais esclarecimentos. Percebi que a grande maioria não conseguiu realizar a atividade também. A professora até explicou que é muito mais fácil olharmos de fora e darmos texto à partitura vocal do outro, do que olharmos de dentro e fazermos o mesmo com a nossa partitura. Eu confirmei isso muito bem.

     Na aula, alguns alunos apresentaram sua elaboração, entretanto, quase todos com ressalvas, ou seja, estava mesmo um tano confuso a atividade para quem nunca teve contato com essa proposta antes. Procurando sanar as dificuldades, a professora orientou que em duplas faríamos a atividade. Daríamos uma narratividade à partitura vocal do outro. 

     Seria menos difícil, mas quando percebi que minha dupla foi o San, entrei numa enrascada, porque ele sempre elabora partituras bastante complexas, velozes, explosivas e cômicas. Me vi desafiado e partilhei do meu sentimento com ele. Ser humano de luz. 

     Pois bem, começou com ele. Fiz minha partitura vocal a fomos construindo juntos a narrativa. Ele conseguiu fazer um ótimo trabalho. Minha vez agora. Ele fazia sua partitura e claro que eu pedia para repetir diversas vezes. Também construímos juntos o texto.

     A primeira frase não consegui exatamente utilizar do som, mas o desenho da voz, se é que isso existe. Gravei um vídeo para ficar melhor a ilustração: 

     
     Um pouco sobre o vídeo. É uma situação um tanto lúdica. Existe o personagem do "menino teimoso, desobediente, perturbado e abusado" que desrespeita os adultos e vai ao Campo Santo mal assombrado. Lá ele faz um "cocozão" e quando tenta voltar para casa esse cocô anda, canta e pula atrás dele. É um conto muito engraçado que faz parte do meu repertório como Tio Allan. 

     Esperemos a próxima aula para saber se está certo ou não. Até lá!

quinta-feira, 10 de março de 2016

ENSAIO TEATROLÓGICO: AÇÃO FÍSICA - O QUE É E O QUE NÃO É

Kavka - agarrado num traço de lápis - LUME teatro 


Este ensaio teatrológico  é incidência do estudo e discussão do texto SOBRE O MÉTODO DAS AÇÕES FÍSICAS, de Jerzy Grotowski, na aula de Corpo I, da última segunda-feira ( 07).Tem por objetivo discorrer sobre minhas apreensões do referido conteúdo, um construto feito também no plural, o que me permite dizer que os saberes aqui externados não são só meus. 


"A emoção é independente da vontade". Podemos não querer nos irritar com as pessoas, mas o fazemos. Queremos nos apaixonar, mas não conseguimos. Tantos outros exemplos sustentariam o fato de que a emoção é instintiva, involuntária, portanto, não influenciável. Ela implica uma reação moral, psíquica ou física provocada por estímulos externos: confusões, mortes, amores, surpresas. Assim, Stanislavski pensou o teatro por muitos anos, com a emoção.

     Apesar de a vontade não domar o âmbito emocional, ela tem seus subalternos, que são as PEQUENAS AÇÕES de ordem comportamental. Exemplifico à luz do texto: 

"[...]eu penso no canto dos olhos, a mão tem um certo ritmo, vejo minha mão com meus olhos, do lado dos meus olhos quando falo minha mão faz um certo ritmo, procuro concentrar-me e não olhar para o grande movimento de leques [...]".

     Os verbos em evidência apresentam a ação. A ação, em se tratando de um indivíduo psicologicamente saudável, é produto da razão, do pensamento, de um processo mental organizado. São essas pequenas ações que Grotowski chamou de físicas. 

      E por que discorrer sobre a emoção num ensaio sobre AÇÃO FÍSICA? Porque a ação física é objetivada, pensada, racionalizada. Apesar de soar um tom de mecanização nos adjetivos, esse constructo é o que gera a emoção cênica. Não é SUBJETIVO, não é de fora para dentro, é dentro para fora. Não são os estímulos externos que geram ação física, mas os processos mentais internos.  

     A ação física acontece na relação NÃO-FÍSICA com o outro ser. Ou seja, a personagem da cena pode ser a Julieta na instância física, mas na não-física, ela pode ser a mãe e qualquer outra pessoa ou ser que represente a emoção que necessita ser encenada pelo ator. Utilizamos, portanto, de recursos da linguagem cênica como a SUBSTITUIÇÃO, a FALA INTERNA, a PROJEÇÃO, a VISUALIZAÇÃO, dentre outros.

     A Ação física só é possível quando há ORGANICIDADE nos movimentos, quando os órgãos que possuem diferentes funções no corpo estão engajados na mesma ação, de forma combinada, harmoniosa; é quando determinada ideia a ser encenada percorre todo o corpo, e todo ele externa tal verdade; é quando se consegue a unidade de pensamento e ação. Recorremos aqui à psicofísica, a relação entre os estímulos físicos e suas respectivas sensações. 

     Quando não há organicidade na ação, há GESTO, que nada mais é que a ação periférica do corpo. Não vem do cerne, do interior, não é uma ação construída ou pensada, é apenas realizada. São movimentos ditos "clichês", os banalizados, sem originalidade, as imitações grotescas, o já feito, o frequente. São movimentos isolados das mãos, dos pés, e de qualquer outra parte do corpo. 

     Grotowski defende que as ações físicas estão enraizadas na COLUNA VERTEBRAL, no centro do corpo, para que habite todo ele. Podemos absorver esse pensamento em dois sentidos: (1) Fisicamente falando, entendemos que todos os movimentos necessitam que sua origem seja na coluna vertebral para que todo o corpo participe daquela ação. Discorrendo (2) psicologicamente sobre esse fato, consideramos que a coluna vertebral é sinônimo de útero, de âmago, isso implica dizer que a ação física precisa possuir uma verdade radicada no mais profundo do nosso ser. 

     O texto discorre ainda sobre o MOVIMENTO. Movimento e ação física não podem ser sinonimados. Movimento, como exemplificado no artigo, são ações características do "quem". Por exemplo: o padre tem movimentos característicos de um padre, isso não é ação física. As ATIVIDADES cotidianas, como varrer o chão, fumar um cachimbo não são ações físicas, no entanto, tais atividades podem vir a ser, desde que estejam inseridas numa narratividade. Ou seja, quando é feita uma pergunta na cena e o ator começa a preparar o cachimbo para fumar como uma forma de ganhar tempo, ele inseriu uma atividade numa narrativa, logo, tal atividade se tornou uma ação física. 

     Por último, quero discorrer brevemente sobre outros dois detalhes inerentes ao artigo: o SINTOMA e o SÍMBOLO, que são recursos da linguagem cênica e possuem sua significância no palco. 

     Podemos dizer que o sintoma é expressão da emoção, ambos são instintivos. Quando alguém enrubesce (fica corado, avermelhado) ou quando as pernas se movem num momento de impaciência ou ansiedade, são sintomas, insubordinados da vontade. Já o SÍMBOLO é a evidência de um sentimento ou ação. Bater o cachimbo na mesa, por exemplo, pode ser um símbolo alteração de humor. Mas é lícito salientar que ambos podem caminhar juntos. Numa ação pode haver os dois elementos. 

     Finalizo o presente ensaio parafraseando o ator-pesquisador LUME, Renato Ferracini:

"Podemos dizer que a ação física é a passagem, a transição entre a pré- expressividade e a expressividade. Ela corporifica os elementos pré- expressivos de trabalho e (…) é o cerne, a base e a menor célula nervosa de um ator que representa. É por meio dela que esse ator comunica sua vida e sua arte. Segundo Luís Otávio Burnier, a ação física é a poesia do ator".