sexta-feira, 18 de agosto de 2017

O CAOS DE ME SER - A poética de uma nova montagem



A minha aflição não é apenas não saber ao certo do que se trata o "Não eu-meu", mas de quantos ou dos "quens" se trata.

O caos de me ser é avassalador! Queria mesmo ser um Demiurgo de mim, e organizar a  minha matéria caótica segundo os preceitos do ideal de mim. Mas não consigo me desvencilhar da máxima "Quem sou eu?". 

NÃO EU-MEU
Allan Maykson

Sou meu próprio elemento atrapalhador
Minha própria oposição 
Sou afeto, dejeto, coração
Sou minha própria extensão
Minha auto-oposição. 

Mutilo meu personagem

Me misturo a ele
Sou a plasticidade dele... 

19 de agosto de 2017

Não me satisfaço com a vida que tenho, não me sinto satisfeito com minhas proposições cênicas, com minhas criações. A arte não me basta. Eu preciso do amor. "O amor que faz girar o mundo", como diz a Duquesa (eu) em Alice. 

Falando em Alice, e em Duquesa, é interessante de se pensar que ela dá voz a uma aspecto de mim: minhas sombras. Ela pode ser irônica e deve, pode ser poderosa, inteligente, sagaz, uma grande pensadora, confiante... oras, quantos desses adjetivos são sombrios? Por que os escrevi como sombrios? O que a sabedoria quer me dizer? Ato-falho?

Não obstante, a Madrasta, em Cinderela, meu personagem, é um desdobramento da Duquesa. E fico muito feliz em poder assumir, estudar e desdobrar uma construção que já era tão potente e inteira. A Duquesa é uma extensão de mim, mas é Duquesa, não sou eu. 




Poderia a Madrasta ser menos eu, menos Duquesa e mais um não-eu? O que é ser um não-eu? Quanto de não-eu posso doar à Madrasta? O Não eu-meu é pode ser uma figura distante de mim? O Não eu-meu seria exatamente essa busca insana pela distância de mim? Quando menos eu mais poético? Quanto menos eu mais personagem? Quanto mais sacrifico de mim mais não me tenho no personagem? O caos de não me ser na vida, se equipara ao caos de não me ter no pepel? O quanto o não eu-meu é experimentável, possível, degustável, plausível? 



Eu não tenho o Não eu-meu como práxis formada, fundamentada e experimentada. Não descobri meios, formas, "comos", métodos, procedimentos. Essa crise de não tê-lo me aflige e também desperta o desejo de buscá-lo, porque buscá-lo é buscar-me. Eu quero dizer que, esse meu novo projeto de pesquisa "ATOR E ALTERIDADE: O "NÃO-EU MEU" COMO PROPULSOR DE UMA PLASTICIDADE DOS AFETOS", não nasceu pelo projeto, pela necessidade de se desenvolver uma Pedagogia do Ator, não apenas isso, nasceu como uma Pedagogia para me encontrar, tal qual o primeiro projeto que dá título a esse blog, o "Intrateatro: Procedimentos Cênicos Aplicados à Arteterapia", neste eu me encontrei e ainda me descubro nele. 


Por que Alteridade? Por que "Não eu-meu"? Por que "Plasticidade dos afetos"? Como defender tudo isso? O campo da experimentação é crucial. Vivenciar. O importante aqui é assumir que o IC é uma busca por mim mesmo. E qual homem não se busca? Quem não se busca? Se não se busca, se resgata, mas estamos sempre nos movimentando com as engrenagens do desejo. 


Nas experimentações de Cinderela, eu observava tantos corpos, desenhos, ações, visualidade que eruptizavam no palco. Me perguntava: quem é quem? Quem é que está dentro? Quem é que está fora? O que introverte? O que extroverte? E se eu dissesse "Seja menos Samires!" ou "Seja mais Anastácia!", que figura viria? Que corpo a Sami poderia buscar dentro de mim, para onde ela iria ao procurar a Anastácia dentro de si? Qual parte de si seria esse personagem? 

A Duquesa e a Madrasta, quem são essas figuras? O que elas representam de mim? É possível criar algo que seja totalmente distante de quem eu sou? É possível um Não-eu que não seja meu? 



Não me pertence, mas é meu também. Eu doei, saiu de mim para alguém, não é mais meu, mas sou eu... E acredito nessa doação o tempo todo de grafias, fragmentos, pedaços de nós... Acredito que não se passa no mesmo rio duas vezes, acredito que, depois que joga uma pedra no rio, nunca mais ele será o mesmo. Levo minha existência assim... eu nunca mais serei o mesmo depois deste texto, assim como nunca mais serei o mesmo após entrar no meu quarto e me deparar com informações que me despertaram pensamentos novos ou os mesmos pesamentos num momento novo. Cada atravessamento me torna não mais o mesmo de antes e esse "antes" acontece o tempo inteiro, o passado se faz segundos depois do presente, depois dizem que o que depois só pertence ao futuro... bobagem! 

Eu quero devanear meus gritos 
Florescer em meus ritos 
E desentalar os meus vômitos. 

Quero me despir dos meus martírios 
Usufruir dos meus delírios 
Explorar esse meu eu atônito. 

Quero descobrir o que eu sou
Quero saber que não sou nada 
Que não sou pronto e acabado. 

Quero errar todos os meus pontos 
Quero ser lápis que se aponta 
Até sobrar mais nada... 

Allan Maykson
19 de agosto de 2017

As reticências são minha melhor poesia. 

Ser Madrasta pode ser um desafio pouco, por conta de alguns registros já estarem impregnados na minha tessitura corporal, porém, não me satisfaço, eu me desfaço, até disfarço, mas meu anseio é ainda construir, elaborar, rasurar, para que a Madrasta surja cada vez mais. Foram 3 encontros da nova pesquisa e alguns registros já se diferem. 

A Duquesa é fluída, a Madrasta é engessada. A Duquesa escorre, a Madrasta engessa. A Duquesa é fugaz, a Madrasta é presente. A Duquesa é a lava descendo, a Madrasta é a erupção. A Duquesa é escorregadia, a Madrasta é áspera. A Duquesa é leve. A Madrasta é firme. A Duquesa é do canto popular, a Madrasta é lírica, canta ópera... 

A relação entre as duas está na Oposição. 

O Não eu-meu também pode se apropriar da oposição entre ator-personagem, da oposição ator-animal, animal-personagem... mas desejo chegar num oposição ator-ator, personagem-personagem. Oposição dentro de um mesmo enquadramento. 

Por fim, o caos de me ser me é. A minha crise de existir, também é minha crise de criar. O Não eu-meu busca respostas para comunicar a mim sobre mim mesmo. 

Avante! 


terça-feira, 1 de agosto de 2017

UMA REFLEXÃO SOBRE O ATO DE ESTAR PRESENTE


Por Allan Maykson

Minha mente deseja refletir sobre o “estar”. E dessa vez quero me abster das teorias e citações e eleger o que pulsa dentro de mim: a crise da presença. Quero falar de uma presença que escorre nos olhos e no corpo, uma energia visceral que rouba o olhar e a presença do espectador sem que ele perceba o tempo que se dedicou àquela visualidade se doando ao que está sendo encenado.




A presença é um eco que ressoa numa via de mão dupla, ela caminha de dentro pra fora, depois retorna, de fora pra dentro, é aí que se percebe os poderes da catarse que Aristóteles defendeu. Me deixo ir à medida que me reconheço no que não é meu, mas me pertence. Um “não eu-meu” que interrompe uma atividade racional frívola e canaliza para a reflexão sobre minha existência.

Logo, o que é existir? E o que é este estado de presença que me ganha, que me toma, que me possui?



Eu gosto de estar naquilo em que existo, e quando percebo que lá existo, aquilo também passa a existir em mim. O estado de presença não pertence só a mim, não está somente em mim, está nos arredores da minha existência em determinada circunstância. Estar aonde meus pés estão me deixa atenta ao solo no qual eu piso. Eu tiro meus calçados para que uma parte receptora do meu corpo me dê notícias sobre esse fragmento de mundo que está sendo habitado por mim.

Estar presente remete ao estado integral de quem somos na integralidade do que a vida está nos propondo viver em determinado momento. Logo, estar presente numa praia à noite é perceber as sutilezas as quais a presença da praia me submete à degustação.





O momento de “estar” supera a efemeridade do relógio, mas reafirma a magnitude do tempo. No estado de presença o tempo é contado à medida do que nele foi vivido. Assim, quando estamos presentes, num estado de ausculta do universo interior e exterior, podemos entender, superficialmente (talvez), o que chamam de “o tempo de Deus”.



É engraçado como falar sobre presença me leva a discorrer sobre o existir, que remete ao tempo, que me conduz a Deus...

Outro dia eu resolvi estar presente na Praia do Ribeiro, em Vila Velha, ES. Uma simpática praia onde ficam atracados alguns barcos. É uma vista maravilhosa e introspectiva (quando queremos que seja). Sentei num banco de concreto, e por alguns minutos olhei o horizonte mais próximo e os arredores de mim. A minha presença integral foi se estabelecendo, e assim, eu pude perceber a presença daquela fragmento de mundo, e começamos a estabelecer um diálogo. A linguagem era o vento, o que ele carregava, o que ele mexia, o que ele movimentava, o que ele tirava do lugar e o que ele não tirava; as ondas que ele ornamentava, as partículas de areia que ele levava ao céu, as folhas que ele atirava ao chão, as rochas que apenas acariciava... Ah! Que belo de um diálogo... de repente um silêncio se fez, assim, não havia mais vento, nem folhas caindo, nem ondas surgindo, nem grão de areia subindo, nem cheiro, nem uma mudança na palheta de cor, a vida parou diante dos meus olhos para e eu entendi, finalmente, o que era a onipresença de Deus. Deus era tudo aquilo, todo o horizonte, toda rocha, todo vendo, toda praia, toda areia, toda concha, toda folha. Tudo. Eu respirei fundo e chorei, porque a minha presença se entrelaçou na presença daquela fatia de vida e ela conversou comigo. Eu existi nela e ela existiu em mim, logo, estávamos, ambos, sendo um estar presente.



No teatro, a minha presença enquanto ator sobrepõe os meus olhos. E o que procuro como presença enquanto espetador de um espetáculo é ser o alvo de um olhar que me assassina com sua munição de preenchida de presença. Eu quero ser arrebatado, e me deixo levar... Meu corpo sai da cadeira, eu respiro fundo, eu seguro o peito, porque quando identifico uma presença vívida e pulsante, é porque ela já habita em mim e eu nela.



ESTADO DE PRESENÇA
Allan Maykson

É que eu não sei não-estar
Não sei estar-ausente
Não sou eu isto de estar-não-estando...
Sim... esta-n-d-o...
A atividade estar.
Não sei estar-estático
Senão meu corpo se apresenta
E minha mente não.
Ou, minha mente se apresenta
E minha alma não...
Não sei estar-despresente
Estar sem presença
Estar pelo “estou”
Ou pelo “está”.
Gosto de estar pelo “sou”
E gosto de ser o e-s-t-a-n-d-o.
Ah, eu gosto da vivência
Não apenas a presença.
Se não estou, eu saio
Se eu corro é porque nunca estive.
Se eu fico é porque
Estou no estado de ser o estando
Aí sim eu existo naquilo
E aquilo existe em mim...


01 de agosto de 2017


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Imagens: Gabriela Júlia